SE EU FOSSE APENAS


Se eu fosse apenas uma rosa
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
- de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...
Cecília Meireles

SÚPLICA DE AMOR


Ouve o meu lamento, amor.
Ouve o silêncio que me cerca.
Ouve o ruído das minhas mãos cansadas
de buscar inutilmente tua pele, tuas mãos.

Vem, amor, vem sentir no meu peito
um vaso inútil e vazio, cheio apenas das
dores do meu coração exausto de
tua ausência.

Vem de volta, com novas estrelas, aquelas
que prometeste colocar nos meus olhos,
luzeiros perenes do nosso amor para sempre
e que se apagaram de súbito quando saíste.

Vem, trocar os teus sentidos com os meus
como naquelas penumbras lentas, onde nos
perdíamos em alma e carne, livremente pecadores
no nosso amor menino, carrossel de delírios.

Saramar

CANÇÃO PARA UMA VALSA LENTA


Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...

Mario Quintana

SONHOS DE AMOR


Meus sonhos, entreguei-os todos
em mãos benfazejas.
Tornei-me lúcida e real nessas mãos
que me conduziram, ora aos céus,
ora à indeléveis delícias.
Fui com meu amor, olhos abertos,
construindo caminhos de paixão,
abrindo sendas com sonhos perfeitos
e coloridos.
Troquei beijos e sonhos coloridos.
Mas, "...o tempo passou de repente..."
como disse o Chico.
Os beijos hoje são lágrimas .
Os sonhos, ah! esses...
Tomei todos de volta...são meus.
Bailam à minha volta como
aquelas florezinhas do campo
levadas pela mínima brisa.
Saramar

ANSEIOS


Sinto na boca
O gosto do teu gozo.
Gotas ardentes,
néctar do desejo,
tu, em brasa.

És farol
deste navegador audaz.
Nasce de ti um facho,
guia-me essa luz
no oceano dos anseios.

É assim que é,
liames e enleios.
Teu fogo me conduz
ao buscado porto do
meu próprio êxtase.
Paulo Renato Rodrigues

GALO DA MADRUGADA



Para quem conhece o Recife o carnaval é um momento de união entre as pessoas, pobres e ricos, negros e brancos, todas as raças brincam no tom da mesma musica. Milhares de foliões querendo curtir aqueles momentos de alegria e “surto de identidade”, estávamos nós, odilene e eu willam, com latas na mão para fotografar aquela multidão mas não conseguimos, pois o movimento era muito grande e não dava para ficar parado nem três segundos com a lata. Para que a imagem não ficasse tremida, então fomos no outro dia bem cedo para a ponte de ferro. O artista principal no sábado de carnaval o Galo da Madrugada - fizemos algumas imagens com a lata e a reação das pessoas era de surpresa e, ao mesmo tempo de espanto, mas conseguimos fotografar, uma das raras vezes sem ser interrompido por pessoas que passam e não acreditam que nós somos fotógrafos, com latas de leite ao invés de câmeras fotográfica convencionais.
Willam & Odilene
Este foi um presente que ganhei. Neste blog, que falo de amor e de amar, colho frutos soberbos, como esse. Um ato de amor, o presente. Obrigada.

NOS JARDINS DOS SALGUEIROS


Nos jardins de salgueiros meu amor e eu nos encontramos.
Ela atravessou os jardins com os seus pezinhos brancos.
Pediu-me que levasse o amor como crescem as folhas nos ramos
Porém, eu, jovem e tolo, não dei-lhe ouvidos, discordamos.
No campo à margem do rio permanecemos então,
E no meu ombro recurvado ela pousou sua mão.
Pediu-me que levasse a vida como cresce a grama no campo.
Porém, eu era jovem e tolo, e agora banho o rosto com o meu pranto.

Willian Yeats

RETALHOS


Havia dias de esperanças maiores que a realidade.
O sol brincando de esconde-esconde,
parecia me dizer, acredite,
há sempre um término para os amores.
Sim, acreditei que iria me salvar e
amanhã, quando o sol voltasse,
estaria livre da pena de amar.
Ilusão vã. O amor não se vai nunca.
Disfaça seus rastros, nubla a visão e permanece.
Quando veio, a alma distraída, não senti sua presença
Até que se derramou em mim, uma tempestade
de doces sensações, de obscuros desejos que,
no entanto, fizeram do meu corpo, estrela,
e do meu coração, arena.
Hoje, a alma em retalhos, só entre os solitários,
busco em mim, seus restos e só encontro saudades.

Saramar

NÁUFRAGO


Andei pelos meus sonhos para colorir a noite de meus olhos
Acordei buscando o sol naquela noite, onde, encontrei você.
Solitário, soluçava diante das estrelas despidas pelos ventos
Beijei a lembrança. Abracei a sua foto, desvelei o seu rosto,
Espalhados em meus olhos molhados
Pelos fragmentos de felicidade
Empalhadas em meu corpo estirado no vazio
Esqueci você dentro de mim
Sou náufrago do tempo.
Embalado pelas marés
Ondulantes que navegam meu coração.
Passageiro das ondas do mar.
Sobrevivente dos mergulhos
Nas nascentes do amor,
O amor dividido, desajeitado, desejado.
Grito sem esperança de um abandono voraz.
Fico mudo! Permaneço calado, nos afagos silenciosos
Daquele último sorriso regurgitado na memória.
Conversei com a ilusão prometendo não mais sonhar
Esculpi meu desejo traçado nos castelos de areia.
pelos devaneios presos nos liames das lembranças
costuradas nos retalhos do passado.
Hoje meu futuro.
Guardo embaixo do tapete, passagem obrigatória deste
Náufrago, rastejante de lembranças doloridas
Do presente.
Wilton Chaves

SEARAS


Em longos outonos pálidos, quase invernos,
Em noites e madrugadas úmidas de solidão,
Lancei sementes de amor em searas diversas.
Muitas nasceram, frutificando lentamente
Outras começaram e morreram jovens.
Outras que plantei ainda estão inertes,
E espero, na minha solidão, espero.
Saramar

PRESENTE



Ao meu amor, dei todas as palavras,
as mímicas, os sonhos e algumas flores.
Um presente diário de momentos mudos
e olhares quentes.

Ao meu amor, dei de presente todas as
carícias, algumas inventadas novamente.
Outras sonhadas, copiadas de novelas
baratas e ardentes.

Ao meu amor, todas as lágrimas dei,
ao vê-lo dormindo em meu corpo ou
em horas extremas que se revelaram
começos e recomeços.

Ao meu amor, dei meu presente.
Mas, isso foi ontem, foi antes
.
Saramar

CARTA DE AMOR


Meu amor, a música que
embalou nossos sonhos
Acordou hoje em meus

sonhos solitários.
Eu, que jurei esquecer

as notas perdidas em sua boca,
cantarolei com o tom

amargo da saudade.
As palavras de amor da melodia

estão embotadas pela indiferença.
Esqueci-as,
porém, sem esquecê-lo.
Percebo os elos dos versos

de amor que ataram também
nossos sonhos por um tempo

tão rápido e breve como as
fantasias de Schumann.
A música desnorteia meus sentidos

e me perco em seus
ecos, assim como me perdia

em seu corpo,
móbile dos meus desejos.
Saramar

SONETO DO AMOR TOTAL


Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há tanto tempo
Entendo que sou terra.
Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu.
Pastor e nauta
Olha-me de novo.
Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst

DANÇA



O nosso amor é uma dança vermelha
regida pelas paixões enleantes de
um tango argentino
e o fogo, o fogo, o fogo .
Em nosso amor, palavras ferem
e rasgam a pele e a alma para
depois lavar as feridas
com os olhos molhados,
costurar as lacerações
com beijos molhados.
Em nosso amor, delicadezas
lentas atravessam nossos
compassos, tornando leves
nosso pés e o corpo inteiro.
Nosso amor é uma dança
íntima e passional que
ora nos eleva ao céu,
ora nos derrama neste
duro chão que é a vida.
Saramar

AMOR



Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre
.
Eugénio de Andrade

AINDA AMO VOCÊ





Amo, ainda.
Mais, se possível fosse.
Amo as noites escuras de dor e silêncio
Quando sua boca deixou a minha
E tentou outros sabores.
Amo as dores
que minha alma provou
na solidão de não estar.
Amo as pedras que rolaram
sob nosso amor selvagem
e o riso dos pássaros que
se fartaram de nosso mel.
Amo até sua ausência
porque dela assomam
os mínimos carinhos e
as carícias inimagináveis
que seu amor inventava
para agradar o meu.
Saramar

SOLIDÃO


As mãos brancas da solidão
pousam suavemente nos
móveis empoeirados e vazios.

A solidão escorre lenta e dolorida
por corredores frios.
Vem trazendo cheiro de
flores mortas.
Ressoa silenciosa e tange
o cordão tenso que
abala os sons.

Não existisse a solidão,
como seriam as noites
e as madrugadas frias?
Como seriam o silêncio
e a dor?

Se os ecos do meu coração
fossem ouvidos à distância,
a solidão não seria.

Solidão, amiga minha,
constante presença a
exigir constante dedicação.
Anjo da guarda, demônio,
vida.

Saramar

VALSA PARA LEILA

POÉTICA


Uma palavra há de ser poética
desde que você a coloque no lugar
imprevisto, desde que ela dê alarme,
desde que ela quebre o muro da
velha ordem. É preciso sempre
escrever a primeira vez de uma
frase. Se possível botar roupa
rasgada nas idéias. Toda frase
que se faz é preciso gozar nela,
E é preciso fazer o serviço com
paciência para que o gozo dê
frutos.
Manoel de Barros.

VOLTA


Nestas tardes mornas e caladas,
quando o sol entontece as cigarras e as flores,
volta a saudade dos beijos cheios de
calor e do seu olhar falando em minha alma.
Voltam os nossos silêncios e o coração aos pulos
esperando a próxima carícia, a surpresa
do doce sorriso e dos carinhos tontos.
Nestas tardes, sinto a falta do sono nos teus lábios
e do despertar em braços moles de sonhos.
Por favor não se demore mais
que as tardes já são noites
e o frio da lua branca
já dominou o sol.
Saramar

NUVENS


Às vezes, esqueço de sonhar
e só me lembro ao entardecer,
quando o beija-flor vem
comer na vasilha dos cachorros.
Então me lembro de olhar minhas flores
e vejo que a gloxínia floriu.
Branca com bolinhas vermelhas.
Desato, então, a sonhar como nuvem.
Sei que nuvens sonham
senão não seriam bicho, gente, beijo.
Viagens por céus e mares,
Beijos, flores outras e amores.
Imagino largos vôos.
Nem consigo voltar.
Fico lá
nas nuvens.

Saramar

EU TE AMO


Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armários embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica como que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir
Chico Buarque

ÂNSIAS



Meu corpo transborda.
Meus poros abertos aguardam
um rastro de desejos e delícias.
Quero a carícia inicial, íntima,
em minhas fontes e ramos.
Minhas rosas rubras tremulam
na ânsia de sua boca animal.
Vem, amigo,
trazer o fogo,
apagar o meu fogo
com seus líquidos incendiários.
Misture-os aos meus,
dentro e fora
dos cálices originais.
Saramar

O AUSENTE



Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem amiga...

Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

Vinícius de Moraes

LUZ DO SOL


Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha em graça
Em vida em força em luz
Céu azul que vem até
Onde os pés tocam a terra
E a terra inspira e exala seus azuis
Reza, reza o rio
Córrego pra o rio, o rio pro mar
Reza a correnteza, roça a beira doura areia
Marcha o homem sobre o chão
Leva no coração uma ferida acesa
Dono do sim e do não
Diante da visão da infinita beleza
Finda por ferir com a mão essa delicadeza
Coisa mais querida, a glória da vida
.
Caetano Veloso

MASCARADA


Você me conhece?
(Frase dos mascarados de antigamente)
- Você me conhece?
- Não conheço não.
- Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores...
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
- Não conheço não.
- Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia...
Era a minha fala
Canto e persuasão...
Pois não me conheces?
- Não conheço não.
- Choraste em meus braços
- Não me lembro não.
- Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!
Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?

- Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.

Manuel Bandeira

PESCAR LEMBRANÇAS







No embornal,
levo minha nostalgia
e um ou dois sonhos de outros tempos.

É nessas tardes caídas
que busco nas águas do açude
um ou dois trechos da fugidia memória.

Nesse cenário azul
das fímbrias da Serra do Mar
cessam todos os ventos.

São horas de passar o fio
e fazer um colar
com as contas da própria história.

Paulo Renato Rodrigues

BUSCA



Venho construindo pontes.
Com pedras e entulhos e
asas de borboletas para sempre imóveis.
Venho construindo pontes.
Um olhar de águia guia meus movimentos
e me leva por estreitos caminhos
invisíveis aos meus olhos cegos.
Venho constuindo pontes.
Piso em águas, escorrego em pedras
buscando fontes, bases, laços de amarrar.
Venho construindo pontes.
Hoje, uma ponte cai, levada pelas dores
Ontem, o tempo já havia tomado outra.
Amanhã, quantas permanecerão
suspensas nas asas das borboletas mortas?
Saramar

AS SEM RAZÕES DO AMOR


Eu te amo, porque te amo,
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

NON SENSE


Ando cheia de palavras.
Tardias, equívocas,
mal endereçadas.
Ando cheia de palavras.
Saramar

DORES


Sob minha pele, as dores continuam presas.
São saudades dos amores passados
que embalaram meus sonhos com papel
de presente colorido.
São lembranças que resistem ao cotidiano
e, de repente surgem, buracos negros das
alegrias que ainda possuo.
Os rios de dores correm dentro de mim,
abrem o concreto de minha alma,
entumescendo vales que não mais os contêm.
Saltam pelos poros e
deságuam em meus olhos,
abundantemente.
Saramar

AI! SE SÊSSE!...

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cumigo insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!
Zé da Luz

INSCRIÇÃO NA AREIA


O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!
Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?
O meu amor não tem
importância nenhuma.
Cecília Meireles

DESAMOR



Ternura insatisfeita.
Carinho morto antes de
se manifestar.
Palavras encarceradas
na solidão.
Melancólica saudade do
que não existiu nem
existirá.
Dores incógnitas
desenhando marcas
em um corpo estéril.
Saramar

POEMA 15


Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
Parece que teus olhos houvessem saltado
e parece que um beijo fechara a tua boca.
Como todas as coisas estão cheias de minh'alma
emerges das coisas cheia de alma, a minha.
Borboleta de sonho, tu pareces com minh'alma,
como pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como a queixar-te, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e minha voz não te alcança:
permite que eu me cale com teu silêncio agudo.
Permite que eu te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada e simples como um elo.
Tu és como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, afastado e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se estivesses morta.
Uma palavra, então, um sorriso são o bastante.
E fico alegre, alegre porque a verdade é outra.
Pablo Neruda

CIDADE DOS ANJOS

NOITE


Há uma noite em mim.
Seus silêncios me cercam.
Suas escuridões me tomam, redoma de medos.
Vivo à noite permanentemente,
em silêncio para não perturbá-la,
escondida em planos negros e penumbras.
A noite, dentro de mim,
não tem fim nem começo.
Vivo à noite sempre,
esperando um sol
que venha me amanhecer.

TERNURA

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.
Das horas que assei à sombra dos teus gestos

Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade
o olhar extático da aurora.

Vinícius de Moraes

AMOR


O outono é primavera, quando
o amor nos toma o corpo e a alma,
transformando folhas caídas
em flores banhadas na seiva vital.
Envolvidos em embriaguez atemporal,
confundem-se nossos sentidos,
bocas são édens;
a pele, poças
e os olhos, andarilhos cegos.
O amor, esse graal
para nossa incompletude,
nutre-se de minúcias,
Um insensato viver
em busca de si mesmo
Que nós, seus servos,
chamamos de felicidade.

PRÍNCIPES E POETAS


Quero que o dia acabe, cada vez mais rapidamente.
Há uma voz em minha cabeça,
que repete um poema de Bates (uiva, uiva,...)
Há um tremor em meu corpo,
que reflete o desequilíbrio deste maltratado autômato.
Outra voz grita: acorda, acorda,
d’accord, d’accord, d’accord, como Chico.
Escrevi uma página inteira de loucuras
porque não posso falar delas para ninguém.
Acha que sou louca?
Ainda não viu nada.
Nada em mim tem medida.
Não gosto de portas fechadas.
Não gosto de chaves.
Tenho medo de escuro.
Quero tudo aberto e iluminado.
Tudo o que você precisa ser, ou não ser.
Não estou cabendo em mim.
Não estou me contendo.
Há algo me roendo.
Há algo me comendo.
Tremendamente.
O meio dia nunca passa?
A meia noite nunca chega?
Vamos, príncipe, compor uma música?
Quero escrever uma carta de amor,
Mas só tenho um envelope vazio e frio.
Há um ar de expectativa em torno de mim.
Como se a fantasia fosse se realizar.
Bate, bate, geme e uiva,
Perdidos na noite.
Sonho de uma noite de verão.
Fui picada pelo mosquito do dengo.
Doce picada em sua voz.
Doce e violenta voz em meus ouvidos.
Estou contaminada.

SOLEDAD

Te vas quedando solo.
Apoyaste todo tu amor en los ancianos
que te sonríen y luego se marchan.
Escribiste páginas borrables
y poemas de corta duración, como tu vida.
Ni los libros leídos ni los más amados
estarán contigo allá, que es dónde.
Abiertamente solo, vas pensando, en la noche,
cómo engañar a la soledad
con un monólogo,
con un aplauso.


Virgilio López Lemus

CENÁRIO



Na planície estorricada secam florezinhas
azuis e vermelho sangue.
As sobras pretas erguem pedidos de socorro.
O rio passeia calmo, preto, verde, branco.
Insetos cegos tremulam no calor e fazem
zoada onde existia música de pássaros.
Mil sóis embraseiam o chão e o pão.
O rio passeia, calmo, preto, verde.
Lagartixas negras como a tarde perambulam em pedras.
Fagulhas, riscos negros, carvão, carvão.
O rio passeia, calmo, preto.
Cumbuquinhas jazem, patéticas, de látex.
Contas, colares de cores, negros.
O rio passeia preto.
Sombras de movimentos derrotados, a êsmo.
Reetrocedem os homens e suas mãos destruidoras.
Eo rio passeia.
Deserto, voragem.
Preto, preto.

POEMA INÉDITO

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acende-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ramaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino?
Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente.
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó meu pobre, meu grande amor distante

Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!
Mário Quintana

CORTINAS



Hoje, não te olho mais
atrás das cortinas.
Jovem e novo olhar buscando
reaver os velhos sonhos
e antigas alegrias.

Hoje a menina e a mulher não mais conseguem
levar a ilusão até os palcos.
Nem mesmo a razão
busca razões antigas para
este renovado encantamento.

Hoje ainda te olho de longe
e tu, ainda hoje, não me vês.
Estás ainda mais longe,
além de todas as distâncias.

Mas, hoje eu te busco
decisivamente, eu te busco,
sem cortinas, sem razões,
eu te busco.

CLARICE

DECLARAÇÃO

Hoje vim falar da minha cidade.
Da doçura e do prazer que moram
nas praças, nos quartos, em todos
os pedaços da minha cidade.
Vim falar das pessoas
que vivem aqui.
Vim falar da minha cidade,
que traz nos braços jovens
todas as alegrias e tristezas
multiplicadas por milhão, e
que leva no peito jovem,
as esperanças infinitas de
seu povo novo.
Vim falar hoje do amor
que, de repente, aparece,

nos inusitados cantos
em todos os recantos de minha cidade.
Vim dizer que a vida flui, anda,
corre, dói nas veias sadias,
nas pernas maravilhosas, nas puras cabeças
da minha cidade.
Preciso ainda comentar brevemente
que a morte passeia aqui,
como em todas as outras.
Que a dor escolheu esta, como
uma de suas cansadas moradias,
mas, não a mais confortável.
Que a fome também tem lugar
em minha cidade.
Mas, ironicamente, irreverentemente,
felizmente,
vivo aqui em minha cidade.
E, no fim de todas as duras e
sofridas dores,
a vida, a vida-vida,
a vida vivida
com muita vida,
mora aqui
em minha cidade.

CARTA PARA UM AMOR IMPOSSÍVEL



Gostaria de ter nascido argentina,
com uma alma perigosamente passional.
Então faria o que meu coração e meu corpo ordenam,

sem dúvidas ou hesitação.
Deixaria o que há ao meu redor e que já não tem sentido.
Iria ao seu encontro, viver desmesuradamente,
até nos esgotarmos de nós mesmos.
Que durasse algumas horas ou séculos.
Que nos reencontrássemos em outros universos.
Que fluíssemos por uns poucos minutos apenas.
Nada disso tem importância. Tudo é nada. Só você é tudo.
Mas, minha pobre alma é tímida.
Não obedece ao meu coração e muito menos ao meu corpo.
Por isso, fico aqui, vivendo do sonho de um dia encontrá-lo.
Por isso, essa ânsia em meu corpo, nos meus gestos.
Por isso, esse frenesi, essa eletricidade em torno de mim.
Por isso, essa doce tortura revivida a cada dia,
de ter não tendo, de sentir sem tocar, de amar sem ver.
Por isso, sou uma fênix a cada noite
em seus braços, em suas pernas, em sua boca, em seu corpo.
Por isso, meu amor aumenta de segundo a segundo,
areia na ampulheta inexorável do tempo
.

FRAGMENTO DE UM GRANDE POEMA

"A última não existe, Comadre,
nada é último... "


Soares Feitosa

FESTA

A esperança surge colorida.
Os olhos emprestam sorrisos a minha boca .
Anjos e sátiros, mãos dadas,
brincam em meu corpo.
Uma festa, onde o medo procura entrar,
por enquanto, inutilmente.

CHAMADO


Onde anda você
iluminado feiticeiro
que fez derramar lavas,
um árido coração.
Onde está você?
Por que se esconde
depois da festa
amarela, azul,
vermelha
de risos, beijos, paixão?

SOBRE A MORTE

Achado por aí, em um livro qualquer

"Oh! pequena nuvem", disse a virgem,
"peço-te que me digas
Por que não te queixas quando,
num instante, desapareces;
Então te procuramos, mas não
encontramos. Ah! Thel se parece contigo:
Dissipo-me: contudo, queixo-me,
e ninguém ouve a minha voz."

Willian Blake

SONHO

Sob o sol de setembro,
sobre as pedras brancas do rio,
Marieta preta lava alvas,
alvas roupas de outras,
brancas como as pedras.
Todo dia
santo dia
dia santo
Marieta molhada, lava.
Marieta, cada vez mais preta,
roupas mais brancas,
sempre.
Num dia de setembro, sem sol,
dia mais besta,
Marieta dormiu e sonhou.
Sonhos alvos como as pedras,
sonhos lindos como a roupa.
Sonhos de céu
de árvore
de bailes
de amor.
Sonho sem predra branca
com sol de setembro
com luta de setembro
com chuva.
Sonho ansioso de amor
de beijos,
molhado como as pedras
como as pernas de Marieta.
Marieta acordada
molhada
de amor
de lágrimas
de roupa lavada.
Marieta, coitada
acordada.

POEMA JUVENIL


A cidade e as serras,
a cidadezinha pitorescamente morta.
Grandes grilos pousam
em flores descoradas
pela chuva.
O ar pasmaceia.
De vez em quando, bandos de pássaros conversam
nos fios e saem em visitas corteses.
O rio descansa, lento e frio.
Poderia correr, prefere ir se derramando
ao gosto da chuva constante.
De repente, o sol amarela a nesga azul
e se abre maravilhado.
As flores levantam suas sépalas e brilham,
espantando os grilos.
Os pássaros formam uma ala
em alaridos felizes e desconexos.
O rio explode em cascatas felizes.
Tudo reluz e sorri
à chegada do casal real
que, indiferente ao descompasso do mundo,
vem para o ócio conquistado.
Mãos entrelaçadas, sorrisos, amor,
deixando para trás, corações
e corpos saudosos e despedaçados

SOLIDÃO II


O homem é só.
Seu destino é andar sempre
com outros solitários.
De que vale o amor, se é uma
invenção banal, imprescindível?
De que vale o sexo, se está sempre
aquém da solitária imaginação?
De que vale ser homem
se só existe um em cada mundo,
se só existe um nos vários mundos?
Se, em um espaço vazio
aparece a solitária figura,
ela, só o que faz é multiplicar
sua solidão por milhões
e estampar em cada face a
culpa inexorável de estar-ser sozinho.
Por criar a teoria dos grupos,
como num teorema matemático
cuja percepção está no intangível
cosmo, que é a apenas a solidão
em ponto maior?