ILHA


Entre os decrépitos lares,
esquálidos uivos de cães cadavéricos
imitam os donos de línguas mutiladas.
A fome, o pão, o corpo vendido na praça,
“Vai uma dança por um trocado?
Ou a foto por um centavo?”
Há um temor sobre a terra
que impede o enternecimento,
Em seu lugar, o silêncio...
Só os cães ladram
e esquálidos homens, seus semelhantes,
calam.
Há sombras nas ruas
e nos olhos do soldado
enfim, deixado em paz
para morrer pelo desprezo e a solidão

armas que a guerra não usou.
Sísifo gerou ali todos os filhos
que, em vão, labutam,
dos olhos, a sombra salta
e cobre a boca
que se cala.
Há fome nas ruas,
de vida,
quem sabe, um alimento,
um alento,
a pequena felicidade
da mesa farta, antes que, enfim,
a morte leve o leve menino?
Há em cada esquina, um mágico,
em cada alma, um artista.
só assim se pode ser verdadeiro,
só na arte se pode fingir o mundo
e sua magia.
Sussurrada, em todas as vozes,
uma palavra:
liberdade!

Saramar

(a partir de um documentário de Juan Zapata)

8 comentários:

Zeca disse...

Saramar,

belo e triste poema sobre uma realidade que nos afeta a todos, diretamente, sem que façamos algo efetivo para mudá-la. Estarão esses meninos pagando por Sísifo?

Beijo. Carinho.

un dress disse...

dor

liberdade







abraÇo

Isabel-F. disse...

lindo e bem forte o poema ...


bjs

Ricardo Rayol disse...

os cães ladram e o chicote estala nas costas vergadas dos esquálidos zumbis errantes.

DE-PROPOSITO disse...

Que a felicidade esteja contigo.
Manuel

Cristiane Moreira disse...

È um poema para ler, reler e refletir muito.

"Só os cães ladram
e esquálidos homens, seus semelhantes,
calam."

Somente dessa parte já sairia um belo texto.

Beijos Saramar!

Anônimo disse...

Adorei, Saramar. Um poema de fôlego, bem lapidado por suas chocantes/tocantes metáforas. Beijos.Francisco Dantas

Defensor disse...

...perfeito...