CANSAÇO
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Saramar
on quarta-feira, julho 19, 2006
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Deixo
portas abertas
flores nos vasos.
Os amores
Liberto-os
leves e lassos.
Saramar
Imagem: Yuna
P.S. Queridos, irei viajar e só voltarei a postar em agosto. Por favor, não deixem meus poemas sozinhos.
portas abertas
flores nos vasos.
Os amores
Liberto-os
leves e lassos.
Saramar
Imagem: Yuna
P.S. Queridos, irei viajar e só voltarei a postar em agosto. Por favor, não deixem meus poemas sozinhos.
CASTELOS?
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Saramar
on segunda-feira, julho 17, 2006
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Em vão, carrego essas pedras.
Que castelos ainda construo
se não há dragões e são áridos
os príncipes e sempre se vão?
Deixarei as pedras imóveis
como meus sonhos.
Deixarei os sonhos
sob as pedras,
para sempre mortos,
eternamente Bandeira.
Deixo a pedra no peito
e no chão, em poças imóveis,
deixo as lágrimas.
Saramar
Imagem: Paulo César
PEDIDO
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Saramar
on sexta-feira, julho 14, 2006
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Preciso de alguma ternura
em meus dias tristes.
Um Quintana, um poema,
uma canção de amor
que colha meu coração
em versos apaixonados.
Palavras delicadas que
de mim, façam musa, amada,
envolta no perfume da paixão.
Meu romance anda sem cor
a não ser a palidez de suas páginas
há tanto tempo fechadas.
Preciso de um olhar amoroso
por esse livro frágil e esquecido:
minha alma, ilha escondida e solitária.
Saramar
SAUDADE
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Saramar
on quarta-feira, julho 12, 2006
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Uma tarde de caracol
E o relógio dormindo
Na parede amarela.
Só meu pulso se acelera
Aguardando o príncipe
E seus beijos encantados.
Espero e sonho com os
Carinhos guardados em
Suas mãos cálidas e lentas.
Ai, a hora não chega
Para trazê-lo aos meus braços
Inquietos, e ele não vem.
Anoitece, aos poucos e
Aqui em mim, tudo
Escurece.
Saramar
E o relógio dormindo
Na parede amarela.
Só meu pulso se acelera
Aguardando o príncipe
E seus beijos encantados.
Espero e sonho com os
Carinhos guardados em
Suas mãos cálidas e lentas.
Ai, a hora não chega
Para trazê-lo aos meus braços
Inquietos, e ele não vem.
Anoitece, aos poucos e
Aqui em mim, tudo
Escurece.
Saramar
NOITE PROFUNDA
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Saramar
on quarta-feira, julho 05, 2006
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As dores e a escuridão me cercam
em inexoráveis volteios.
As sombas vão e vêm em bailados frios
dentro da minha alma cansada.
A noite é constante
e impede o sol de entrar pelas janelas
e frestas invisíveis
Uma imobilidade me ameaça a
qualquer tentativa de reação.
Os passos me levam celeremente
para o desastre.
A cada novo dia,
mais se aproxima o abismo.
Os presentes que quis oferecer
morreram em minhas mãos inábeis.
Os carinhos que precisava receber
estavam escondidos em mentes
esquivas e lá permanecem.
Afugento o futuro e
me arrependo do passado.
Tudo tão tardiamente.
Tudo tão infinitamente tarde.
Saramar
TEIA
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Saramar
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AMO VOCÊ
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Saramar
on segunda-feira, julho 03, 2006
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Ainda que o tempo passe em tropel
por minhas lembranças e sonhos.
Amo você como todos os dias.
Ainda que a saudade seja minha
única companhia, amo você.
Ainda que meus olhos sejam rios
a correr a procura dos seus,
sem esperança de mirá-los,
amo você e amarei sempre.
Ainda que viva em reticências,
em esperas das flores que não chegam
e de uma carta de amor imaginária
eu amo você e suas ausências.
Saramar
Imagem: Paul Wittreich
REFLEXOS
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Saramar
on sábado, julho 01, 2006
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nem beijei sua boca
Dos seus labirintos,
Dos seus labirintos,
só vislumbres
E um stacatto
E um stacatto
que me emudece e cega.
Entretanto,
Entretanto,
tateei por sua dor
e como Borges,
vi nestes negros espelhos
Que os lobos que o ferem
Que os lobos que o ferem
se alternam
Nos seus reflexos
Nos seus reflexos
e nos meus.
Saramar
Imagem: Alfred Gockel
Saramar
Imagem: Alfred Gockel
INVERNO
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Saramar
on quarta-feira, junho 28, 2006
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A palavra não encobre a alma fria
O verso busca a claridade em vão.
Na escuridão das dores, gela-se a
palma da mão e o peito se encolhe,
despido de carinhos e calor.
O sol lá fora não muda o cenário
das flores mofadas e dos cristais
que não mais rolam em meu rosto,
gélidos, continuam cortando em mim,
gumes da saudade e do desamor.
Não busco mais os seus lumes
e o vento levou suas labaredas
para outros corpos já quentes
deixando-me aqui, só e nua.
Quem sabe, voltará, verão da minha vida!
Primavera e coloridos dos dias e madrugadas!
Saramar
ANTES
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Saramar
on segunda-feira, junho 26, 2006
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Houve um tempo de felicidade.
Tempo em que acreditava ser possível
ter o amor de quem amo sustentando
nossas pontes tão frágeis.
Houve um tempo de esperança.
Tempo em que eu cuidava das flores e
cantava com elas, as canções mais felizes,
em mim algo de criança em manhã de natal.
Houve um tempo em que havia manhãs.
Despertar era véspera de viagem
para um dia grávido e pleno e encantado.
Houve um tempo de esperança.
Hoje, saudades.
Saramar
Imagem: Paulo Freitais
PEDIDO
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Saramar
on quarta-feira, junho 21, 2006
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Devolva o que me tomouE levou em malas e adeus.
Traga de volta meus pedaços
Que cortou falando do seu querer
Ao final, enganação.
Devolva meu sorriso e meus sonhos
Perdidos em sua boca enganosa.
Traga de volta meus pecados
Que lhe entreguei sem pejo,
Porque pesa em mim a ausência
Desse seu mundo percorrido
Em galopes ora mansos, ora tontos.
Devolva minhas ilusões,
Flores nascidas desses sonhos
Que plantou todos os dias
Ao final, ervas daninhas.
Devolva minhas noites
E me permita adormecer
Como nunca mais depois
da constância dos seus lábios.
Devolva o que tomou.
Em troca lhe dou o meu amor
E esse desejo quente de beijar
Novamente sua boca mentirosa.
Saramar
Imagem: Washington Maguetas
Devolva minhas ilusões,
Flores nascidas desses sonhos
Que plantou todos os dias
Ao final, ervas daninhas.
Devolva minhas noites
E me permita adormecer
Como nunca mais depois
da constância dos seus lábios.
Devolva o que tomou.
Em troca lhe dou o meu amor
E esse desejo quente de beijar
Novamente sua boca mentirosa.
Saramar
Imagem: Washington Maguetas
VOCÊ
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Saramar
on terça-feira, junho 20, 2006
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O QUE É O AMOR
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Saramar
on sexta-feira, junho 16, 2006
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estrelas na explosão inicial,
pião nas mãos de criança,
choro incontido e impotente
nas madrugadas ciumentas e
deslumbramento depois,
com os olhos da pessoa amada
se iluminando ao som de
uma canção qualquer.
desejos,
vontade de refazer o mundo,
saudade e esperança misturadas
em gestos e palavras que
dançam sobre o outro.
os sentidos se misturando
em curvas, em retas, em
infinitos côncavos de orvalho e mel.
e a suave dolência do gozo e do céu.
Saramar
Imagem: Ney Tait Frase
MUITAS VEZES CANTO
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Saramar
on quarta-feira, junho 14, 2006
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Muitas vezes canto, em outras, pranto.
Se há borboletas no corpo e luzes,
Canto e preparo o dia como festa.
Se adeuses me abrem o peito em dor,
Pranto, olhos afogados em lágrimas
Lembranças do tempo perdido e do
Amor que mal chegou e, fantasia foi.
Mas se um dia de verão ilumina meu canto,
O amor atraio e seu calor me toma.
Então, borboleta tonta de luz, outra vez
Me exponho à dor, à sombra e ao pranto.
Saramar
Namorado?
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Saramar
on segunda-feira, junho 12, 2006
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PORTA FECHADA
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Saramar
on sexta-feira, junho 09, 2006
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Limpei a pele
E troquei o batom.
Mesmo assim
Seu beijo foi de giz.
Abandonei o meio termo
E escrevi o meu amor em seus poros
Com longas e líquidas letras
E você, muro.
Virei carpideira e, insone,
Revirei suas palavras em busca
De alguma carícia perdida.
Encontrei ácidos e sal
Além de paralelas conjugações.
Ultimamente
Tranquei a porta e ando aflita
Em meus corredores,
Veias cheias
De suas lembranças.
Aqui, não entra mais.
Mas, há uma janela apenas meio cerrada
E voltei a usar o batom vermelho.
Saramar
CALOR
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Saramar
on quarta-feira, junho 07, 2006
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DOMINGO
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Saramar
on segunda-feira, junho 05, 2006
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HOMEM
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Saramar
on quinta-feira, junho 01, 2006
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Ser caído
Desde sempre expulso de si mesmo,
Levado ao seu inferno para sempre,
Perdeu a luz.
Fez-se fera, fez-se monstro.
Arrasta-se solitário pela
Desolação dos seus erros,
Construindo ilusões da grandeza perdida
Sem poder retomar sua beleza cósmica.
Olha as estrelas e
Arrasta-se no chão de
Suas imperfeições.
Pedaços de sua divindade
De que foi se despindo
O assombram e excitam.
Inutilmente!
Não há redenção
Para quem alimenta o monstro
E fere e mata e desfaz.
Reflete em tudo, a sua queda.
Irremisso, busca o princípio
De si, destruindo-se.
Repele a fera em si,
Enquanto a alimenta
E se faz seu súdito.
Dilacera-se, dúbio ser
Pobre, triste e só.
Saramar
Imagem: Henry John Stock
PASSAGEIRO
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Saramar
on sábado, maio 27, 2006
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Falei do meu amor de tantas formas
Falei tanto e sempre do meu amor
Contei das noites vazias que invadem
as manhãs e deixam as tardes enevoadas.
Falei do meu amor em todo o canto
e chorei lágrimas dispersas em versos
quando a saudade se deitava em minha cama
e sua voz era um apenas uma lembrança.
Falei do meu amor sereno e saciado
e cantei suas carícias e seus dentes
em volteios pelo meu corpo agradecido,
lânguida como margaridas ao sol.
Falei tanto, tanto e mesmo assim
seus olhos estão em outros portos
e, passageiro, você nunca se aproxima
do meu coração apaixonado.
Saramar
À NOITE
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Saramar
on quarta-feira, maio 24, 2006
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Em ruas noturnas
Becos me atraem,
Anoitece e rio com os bêbados
Ao meu lado, passeiam solidões.
Não há estrelas e miro os bares.
Outros tristes desenham horas
Em copos ondulantes.
Embriago-me de suas dores e
Despejo palavras sobre a mesa,
Incômodo garçom.
Anoiteço nos becos.
Amores e algum pranto
De infelizes arranham paredes.
Cruzo os círculos de luz
Obesos dos postes.
Seios mortos-vivos
Cravados em desejos
Derramam seu leite na calçada
Nua, nua, como a tristeza.
A noite é inútil.
Não esconde as dores
Alvoreço.
Saramar
Imagem: Almor Loução
ESPERA
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Saramar
on sábado, maio 20, 2006
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Quando chegar, estarei pronta, cheirando a limão.
Quando chegar, meus lábios cessarão o canto,
ocupados com os seus em nova melodia.
Quando chegar, aragens serão ventos e
flores irão se abrir para colorir seus olhos.
Venha logo, meu amor porque em mim,
enleios o aguardam e alguma ferocidade
Do meu amor há muito guardado.
Saramar
Imagem: Gregoria Correia
À SUA ESPERA
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Saramar
on segunda-feira, maio 15, 2006
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Não sei dos dias e perco as horas
Esperando sua chegada.
Há silêncios em expectativa.
Espelhos sem luz se desmancham
nas paredes buscando seu reflexo.
Sei da sua vinda,
sei dos seus atalhos,
Mas não sei dos dias
e me perco nas horas.
Confundo crepúsculos e
À noite, bebo as noites e
Como o tempo, como?
Interminavelmente
Esperando.
Saramar
Imagem: Cristina Carriconde
MÃE
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Saramar
on sábado, maio 13, 2006
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Mulher,
Ventre de ilusões e sonhos,
Mulher planta, flores e seu fruto.
Guardiã das noites, luz dos dias.
Fonte luxuriante de carinhos e afagos
Poço de lágrimas.
Mulher,
Início, meio e fim de todas as vidas,
Em suas mãos carrega o mundo e
suas dores, as dores do mundo,
as dores dos homens,
sua própria dor ao surgir da vida.
Mulher sagrada.
Mãe!
Saramar
Imagem: Klint
FEBRE
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Saramar
on quinta-feira, maio 11, 2006
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e por dentro
Arde.
Saramar
Imagem: Alfred Gockel
Arde.
Saramar
Imagem: Alfred Gockel
EIS-ME
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Saramar
on quarta-feira, maio 10, 2006
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Eis-me,
tendo-me despido de todos os meus mantos
tendo-me separado de adivinhos, mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes
O ausente
Nem o teu ombro me apoia
Nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas
Do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para lá do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes,
O ausente.
Sophia M. Breyner
ILUSÃO
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Saramar
on quinta-feira, maio 04, 2006
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Eu o esqueci tantas vezes!
E, no entanto, permanecem
Em meu sangue, o perfume
dos seus beijos enganosos
e a luz dos seus olhos traidores.
Eu o esqueci mais ainda
E suas melífluas palavras
ainda entristecem minhas noites.
Eu o esqueci, juro que esqueci
e minto, engano meus desejos.
Não quero suas marcas assim
esculpidas em minha alma.
Ai de mim! Não as quero, mas
por mais que elas se derramem
dos meus olhos constantemente,
ficam em mim, ficarão para sempre.
Saramar
Imagem: Sandy Clark
HAI CAI
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Saramar
on quarta-feira, maio 03, 2006
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apressado falcão
nas nuvens suspenso é
um traço dos deuses.
nas nuvens suspenso é
um traço dos deuses.
à noite as flores
dormem sozinhas no rio
esperando o dia.
borboleta sorri
admirando sua asa
no tronco vermelho.
no jardim as flores
de cerejeira tingem
os olhos do tordo.
sem saber do sol
dormita o galo cego
e o dia vai longe.
se chover nos jardins
os guarda-chuvas de sapo
cobrem formigas.
Saramar
TRABALHO
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Saramar
on domingo, abril 30, 2006
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Há no trabalho a essência dos deuses.
Aquele que faz, constrói e sonha
é aprendiz da divindade e dela recolhe o lume.
Verbo tranformado em vida.
Fazer
Construir
Sonhar
Verbos dos homens e dos deuses
elaborando os dias, tecendo a vida
em luta contínua e sedutora.
Não é ópio, antes dor e, apesar disso,
escreve diariamente a história do homem.
Saramar
Imagem: Sadie Patterson
SAUDADE
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Saramar
on sexta-feira, abril 28, 2006
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Gotejar perene das horas
por entre minhas lembranças.
Herança dos carinhos em meus olhos
para sempre molhados, antigos.
Uma dança em torno de mim,
um relógio que só anda para trás
buscando, buscando interminavelmente
os idos, os risos, onde se perdeu a razão.
Eco de beijos tão longos quanto a vida
e mais doces, mais doces, mais doces,
Ah! "eu sei de longe e sei de cor" .
Essas dores para sempre gravadas
em todos os seus vestígios.
Linha do tempo do amor que se foi,
distante de mim, cada vez mais distante.
Saramar
Imagem: Martin Paul
Imagem: Martin Paul
MINHAS PREFERÊNCIAS À LA BRECHT
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Saramar
on quarta-feira, abril 26, 2006
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Alegrias, as naturais.
Dores, as banais.
Dores, as banais.
Casos, os explosivos.
Conselhos, os não ouvidos.
Meninas, as esperançosas.
Mulheres, as indecorosas.
Orgasmos, os estonteantes
Ódios, os inconstantes.
Domicílios, os mutáveis.
Adeuses, os impronunciáveis.
Artes, as marginais.
Professores, os anormais.
Prazeres, os desmedidos.
Projetos, os incontidos.
Inimigos, os distantes.
Amigos, os amantes.
Cores, as invisíveis.
Meses, os incontáveis.
Elementos, os existentes.
Divindades, as penitentes.
Vidas, os sonhos.
Mortes, os tristonhos.
Adaptado da Lista de Preferências, de Brecht,
por convocação do meu querido amigo, o Poeta Pedro Nobre.
Imagem: Rosemary Stanford
VIESTE!
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Saramar
on sábado, abril 22, 2006
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Procurei-te pelos dias sombrios da solidão.
Procurei-te em vários mundos e em outras
tantas vielas, em janelas e bancos vazios de
praças tristes, sem pássaros ou crianças.
E passavas por mim, passavas sempre por mim,
mas em meus olhos calejados de tua busca,
não havia luz e eu só via distâncias e silêncios.
As canções na noite não eram. Tudo se fora, antes.
Quando, perdido o rumo e desfeita em nadas,
surges teatral e, entre pantomimas e flores,
cercas, enlaças, enfeitas minha rua com
pedrinhas de brilhante e me diz: Vem!
Saramar
Imagem: Marie M. Šechtlové
CACIMBA
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Saramar
on quinta-feira, abril 20, 2006
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Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra
Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia
Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê
As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió
Nem sargada, nem insôça
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça
Quando eu vejo essa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá
Desejo, prá quê negá?
Desejo ser um caçote,
cum dois óio dêsse tamanho
Prá ver aquele magóte
de môça tumando banho!
Zé da Luz
Imagem: Di Cavalcanti
INDIFERENÇAS
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Saramar
on quarta-feira, abril 19, 2006
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Deixei o amor e deixarei o verso.
Meus cantos obscuros não encontram
mais eco em rabiscos paupérrimos.
Há umas distâncias que não alcanço.
Em mim, intempéries sem palavras.
Queria algum canto, um violão, talvez.
Acordes entrando em mim.
Clarear meus cantos com alguma voz
amiga, acordes, acordes que me toquem.
Algo emudeceu em meu peito e há um
peso inesperado em minhas mãos que
impede o parto de pobres palavras.
O dia, a noite e o amor com suas emanações
enganosas deixam indiferentes meus cantos.
Queria outros cantos, um acorde, prontos
para clarear os meus cantos.
Saramar
Imagem: Marcio Melo
SEM NADA
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Saramar
on sábado, abril 15, 2006
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SÚPLICA DE PÁSCOA
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Saramar
on quarta-feira, abril 12, 2006
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Homem, pedaço desse mundo.
Todos os deuses se uniram para o criar e lhe
dar a essência amorosa e livre com que surgiu.
Todos os universos se equilibram perfeitamente
em seu redor para mantê-lo vivo e são e livre.
Então, Homem, por que insiste em ser prisioneiro?
Já se faz o tempo de libertar-se, chegou o momento.
É páscoa, pense nisso.
A páscoa é liberdade, é libertação.
Então, liberte-se!
Liberte-se desse animal daninho
que habita os becos de sua alma
e que ignora, oprime e mata.
Liberte-se das aves agourentas
que pairam em seu cérebro e
tramam, enredam e matam.
Liberte-se desses enlaces falsos
do preconceito e do orgulho.
São nós atando suas mãos.
Liberte-se do fardo do ódio
que o faz curvar-se até o chão
onde só os ínfimos se arrastam.
Liberte-se das armas e suas falsas
promessas de força brutal e cega
que elas se voltarão contra sua vida.
Liberte-se dessas mascaras vãs
da individualidade e do egoísmo
que elas mutilam a alma e a face.
Liberte-se desse ser estranho
em que se transformou ao
esquecer sua origem e sua sina:
a Liberdade.
Saramar
Imagem: ALexandre P.
ADEUS
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Saramar
on terça-feira, abril 11, 2006
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Todas as músicas cantei
um segundo antes do fim.
Em todas as línguas pedi.
De você, apenas um sorriso
depois da condenação.
Esta manhã foi a última.
Vê-lo sonhando (com o quê?)
deu-me uma ânsia de arranhar
seus olhos e chorar dentro deles,
uivos de dor no final da cena.
Mas, só o que fiz foi
acordar sem barulho
e mantê-lo dormindo
calando minha voz.
Saramar
PERMANÊNCIA
Postado por
Saramar
on quarta-feira, abril 05, 2006
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