HOJE


Sob as estrelas, seu rosto
é um mar de promessas
aberto às ânsias do meu coração.
Antes desses sonhos
que despertou em mim,
a aridez dos insensíveis
plantara espinhos e dores,
frio e escuridão.
Hoje, ondas de amor
envolvem meu ser e
levito em seus braços,
pássaro feliz e colorido.
Saramar

Imagem: Carol Crigg

VÔO


asas frágeis
vôo malogrado.
ainda assim,
desfilo meu amor
em passo de dança,
alado.
Saramar

Imagem: Degas

CANSAÇO


Cansei de amores
Cansei de laços
Deixo-os e passo
ao largo das dores.
Deixo
portas abertas
flores nos vasos.
Os amores
Liberto-os
leves e lassos.
Saramar

Imagem: Yuna

P.S. Queridos, irei viajar e só voltarei a postar em agosto. Por favor, não deixem meus poemas sozinhos.

CASTELOS?


Em vão, carrego essas pedras.
Que castelos ainda construo
se não há dragões e são áridos
os príncipes e sempre se vão?

Deixarei as pedras imóveis
como meus sonhos.
Deixarei os sonhos
sob as pedras,
para sempre mortos,
eternamente Bandeira.

Deixo a pedra no peito
e no chão, em poças imóveis,
deixo as lágrimas.
Saramar


Imagem: Paulo César

PEDIDO


Preciso de alguma ternura
em meus dias tristes.
Um Quintana, um poema,
uma canção de amor
que colha meu coração
em versos apaixonados.
Palavras delicadas que
de mim, façam musa, amada,
envolta no perfume da paixão.

Meu romance anda sem cor
a não ser a palidez de suas páginas
há tanto tempo fechadas.
Preciso de um olhar amoroso
por esse livro frágil e esquecido:
minha alma, ilha escondida e solitária.

Saramar

SAUDADE


Uma tarde de caracol
E o relógio dormindo
Na parede amarela.
Só meu pulso se acelera
Aguardando o príncipe
E seus beijos encantados.
Espero e sonho com os
Carinhos guardados em
Suas mãos cálidas e lentas.
Ai, a hora não chega
Para trazê-lo aos meus braços
Inquietos, e ele não vem.
Anoitece, aos poucos e
Aqui em mim, tudo
Escurece.
Saramar

NOITE PROFUNDA


As dores e a escuridão me cercam
em inexoráveis volteios.
As sombas vão e vêm em bailados frios
dentro da minha alma cansada.
A noite é constante
e impede o sol de entrar pelas janelas
e frestas invisíveis
Uma imobilidade me ameaça a
qualquer tentativa de reação.
Os passos me levam celeremente
para o desastre.
A cada novo dia,
mais se aproxima o abismo.
Os presentes que quis oferecer
morreram em minhas mãos inábeis.
Os carinhos que precisava receber
estavam escondidos em mentes
esquivas e lá permanecem.
Afugento o futuro e
me arrependo do passado.
Tudo tão tardiamente.
Tudo tão infinitamente tarde.
Saramar

TEIA


Mais a solidão me abraça
Mais me lanço.
E permaneço nua
Do nascimento ao transe.
Danço em ti, teias que traço
E laço.
Seda e cor.
Será dor ou o acinte
De me tornar sua
Sempre e antes?
Saramar
Imagem: Lalique

AMO VOCÊ


Ainda que o tempo passe em tropel
por minhas lembranças e sonhos.
Amo você como todos os dias.
Ainda que a saudade seja minha
única companhia, amo você.
Ainda que meus olhos sejam rios
a correr a procura dos seus,
sem esperança de mirá-los,
amo você e amarei sempre.
Ainda que viva em reticências,
em esperas das flores que não chegam
e de uma carta de amor imaginária
eu amo você e suas ausências.
Saramar
Imagem: Paul Wittreich

REFLEXOS


Nunca o vi
nem beijei sua boca
Dos seus labirintos,
só vislumbres
E um stacatto
que me emudece e cega.
Entretanto,
tateei por sua dor
e como Borges,
vi nestes negros espelhos
Que os lobos que o ferem
se alternam
Nos seus reflexos
e nos meus.
Saramar

Imagem: Alfred Gockel

INVERNO


A palavra não encobre a alma fria
O verso busca a claridade em vão.
Na escuridão das dores, gela-se a
palma da mão e o peito se encolhe,
despido de carinhos e calor.

O sol lá fora não muda o cenário
das flores mofadas e dos cristais
que não mais rolam em meu rosto,
gélidos, continuam cortando em mim,
gumes da saudade e do desamor.

Não busco mais os seus lumes
e o vento levou suas labaredas
para outros corpos já quentes
deixando-me aqui, só e nua.

Quem sabe, voltará, verão da minha vida!
Primavera e coloridos dos dias e madrugadas!
Saramar

ANTES


Houve um tempo de felicidade.
Tempo em que acreditava ser possível
ter o amor de quem amo sustentando
nossas pontes tão frágeis.
Houve um tempo de esperança.
Tempo em que eu cuidava das flores e
cantava com elas, as canções mais felizes,
em mim algo de criança em manhã de natal.
Houve um tempo em que havia manhãs.
Despertar era véspera de viagem
para um dia grávido e pleno e encantado.
Houve um tempo de esperança.
Hoje, saudades.
Saramar

Imagem: Paulo Freitais

PEDIDO

Devolva o que me tomou
E levou em malas e adeus.
Traga de volta meus pedaços
Que cortou falando do seu querer
Ao final, enganação.
Devolva meu sorriso e meus sonhos
Perdidos em sua boca enganosa.
Traga de volta meus pecados
Que lhe entreguei sem pejo,
Porque pesa em mim a ausência
Desse seu mundo percorrido
Em galopes ora mansos, ora tontos.
Devolva minhas ilusões,
Flores nascidas desses sonhos
Que plantou todos os dias
Ao final, ervas daninhas.
Devolva minhas noites
E me permita adormecer
Como nunca mais depois
da constância dos seus lábios.
Devolva o que tomou.
Em troca lhe dou o meu amor
E esse desejo quente de beijar
Novamente sua boca mentirosa.
Saramar

Imagem: Washington Maguetas

VOCÊ


Sua voz, melodia do prazer.
Seu riso, vento da alegria.
Sua boca, fruto do desejo.
Sua mãos, águas da ânsia
de tê-lo inteiro e sem freios.

Saramar

Imagem: Rick M.

O QUE É O AMOR


estrelas na explosão inicial,
pião nas mãos de criança,
choro incontido e impotente
nas madrugadas ciumentas e
deslumbramento depois,
com os olhos da pessoa amada
se iluminando ao som de
uma canção qualquer.
desejos,
vontade de refazer o mundo,
saudade e esperança misturadas
em gestos e palavras que
dançam sobre o outro.
os sentidos se misturando
em curvas, em retas, em
infinitos côncavos de orvalho e mel.
e a suave dolência do gozo e do céu.
Saramar


Imagem: Ney Tait Frase

MUITAS VEZES CANTO


Muitas vezes canto, em outras, pranto.
Se há borboletas no corpo e luzes,
Canto e preparo o dia como festa.
Se adeuses me abrem o peito em dor,
Pranto, olhos afogados em lágrimas
Lembranças do tempo perdido e do
Amor que mal chegou e, fantasia foi.
Mas se um dia de verão ilumina meu canto,
O amor atraio e seu calor me toma.
Então, borboleta tonta de luz, outra vez
Me exponho à dor, à sombra e ao pranto.

Saramar

Namorado?


Não sei falar de namorados,
sonhos que são
De dias solitários
e noites mudas.
Só posso dizer do vinho
E de tanta carícia aqui guardados,
de ternuras sem dono e destino.
Procuro um namorado
Para tomar dos meus lábios
Os beijos e os ais desse
meu amor perdido.
Saramar

PORTA FECHADA


Limpei a pele
E troquei o batom.
Mesmo assim
Seu beijo foi de giz.

Abandonei o meio termo
E escrevi o meu amor em seus poros
Com longas e líquidas letras
E você, muro.

Virei carpideira e, insone,
Revirei suas palavras em busca
De alguma carícia perdida.
Encontrei ácidos e sal
Além de paralelas conjugações.

Ultimamente
Tranquei a porta e ando aflita
Em meus corredores,
Veias cheias
De suas lembranças.
Aqui, não entra mais.

Mas, há uma janela apenas meio cerrada
E voltei a usar o batom vermelho.

Saramar

CALOR


O sol estorricando flores lá fora.
Pássaros atentos ao nada, nos muros.
Aqui dentro, o calor entontece meus olhos
Não vejo nada, ardendo que vivo
No entreato dos meus desejos e dos seus.

Saramar

Imagem: Sergio Velho_Junior

DOMINGO


Hoje é domingo.
É dia de solidões
para quem nada é
e nada tem.
Dia de travo,
de sentir a mais
funda certeza
de não ser alguém
pra ninguém.
Saramar

LÁGRIMA


desenhos
dunas
maresia
neste meu rosto.
Saramar

Imagem: da Vinci

HOMEM


Ser caído
Desde sempre expulso de si mesmo,
Levado ao seu inferno para sempre,
Perdeu a luz.
Fez-se fera, fez-se monstro.
Arrasta-se solitário pela
Desolação dos seus erros,
Construindo ilusões da grandeza perdida
Sem poder retomar sua beleza cósmica.
Olha as estrelas e
Arrasta-se no chão de
Suas imperfeições.
Pedaços de sua divindade
De que foi se despindo
O assombram e excitam.
Inutilmente!
Não há redenção
Para quem alimenta o monstro
E fere e mata e desfaz.
Reflete em tudo, a sua queda.
Irremisso, busca o princípio
De si, destruindo-se.
Repele a fera em si,
Enquanto a alimenta
E se faz seu súdito.
Dilacera-se, dúbio ser
Pobre, triste e só.
Saramar

Imagem: Henry John Stock

NUA



na folha branca e nua
deixo a pele e a alma e
desnuda, escondo-me
em versos brancos,
negros pela dor
que carregam.
Saramar

PASSAGEIRO


Falei do meu amor de tantas formas
Falei tanto e sempre do meu amor
Contei das noites vazias que invadem
as manhãs e deixam as tardes enevoadas.

Falei do meu amor em todo o canto
e chorei lágrimas dispersas em versos
quando a saudade se deitava em minha cama
e sua voz era um apenas uma lembrança.

Falei do meu amor sereno e saciado
e cantei suas carícias e seus dentes
em volteios pelo meu corpo agradecido,
lânguida como margaridas ao sol.

Falei tanto, tanto e mesmo assim
seus olhos estão em outros portos
e, passageiro, você nunca se aproxima
do meu coração apaixonado.

Saramar

ALLEGRO


Ravel
Chuva lá fora
Beijos de neblina.
A vida às vezes
é sinfonia.
Saramar
Imagem: Rodin

À NOITE


Em ruas noturnas
Becos me atraem,
Anoitece e rio com os bêbados
Ao meu lado, passeiam solidões.
Não há estrelas e miro os bares.
Outros tristes desenham horas
Em copos ondulantes.
Embriago-me de suas dores e
Despejo palavras sobre a mesa,
Incômodo garçom.
Anoiteço nos becos.
Amores e algum pranto
De infelizes arranham paredes.
Cruzo os círculos de luz
Obesos dos postes.
Seios mortos-vivos
Cravados em desejos
Derramam seu leite na calçada
Nua, nua, como a tristeza.
A noite é inútil.
Não esconde as dores
Alvoreço.
Saramar

Imagem: Almor Loução

ESPERA


Quando chegar, estarei pronta, cheirando a limão.
Quando chegar, meus lábios cessarão o canto,
ocupados com os seus em nova melodia.
Quando chegar, aragens serão ventos e
flores irão se abrir para colorir seus olhos.
Venha logo, meu amor porque em mim,
enleios o aguardam e alguma ferocidade
Do meu amor há muito guardado.

Saramar

Imagem: Gregoria Correia

LUGAR COMUM


Eu:
você
Nós:
vestido de verão
leve.
carícia de inverno
quente.
Saramar

Imagem: Kristina

ARIADNE

Traço o risco.
Seu corpo envolto
em meus lábios.
Presa em seu
Bordado,
Arrisco o salto.
E vai e vem
E vou e venho
Trança, tranço
O laço.

Saramar

Imagem: Robert Duval

À SUA ESPERA


Não sei dos dias e perco as horas
Esperando sua chegada.
Há silêncios em expectativa.
Espelhos sem luz se desmancham
nas paredes buscando seu reflexo.
Sei da sua vinda,
sei dos seus atalhos,
Mas não sei dos dias
e me perco nas horas.
Confundo crepúsculos e
À noite, bebo as noites e
Como o tempo, como?
Interminavelmente
Esperando.

Saramar

Imagem: Cristina Carriconde

MÃE


Mulher,
Ventre de ilusões e sonhos,
Mulher planta, flores e seu fruto.
Guardiã das noites, luz dos dias.
Fonte luxuriante de carinhos e afagos
Poço de lágrimas.
Mulher,
Início, meio e fim de todas as vidas,
Em suas mãos carrega o mundo e
suas dores, as dores do mundo,
as dores dos homens,
sua própria dor ao surgir da vida.
Mulher sagrada.
Mãe!

Saramar

Imagem: Klint

FEBRE


Lumes nos seios
mãos invisíveis em vãos.
Reluzente dor a meio
e por dentro
Arde.
Saramar

Imagem: Alfred Gockel

EIS-ME


Eis-me,
tendo-me despido de todos os meus mantos
tendo-me separado de adivinhos, mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes
O ausente
Nem o teu ombro me apoia
Nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas
Do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para lá do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes,
O ausente.

Sophia M. Breyner

RECEITA DE SER FELIZ


Leio todos os
poemas de amor
e finjo que você
os escreveu para mim.
Saramar
Imagem: Rychas

ILUSÃO


Eu o esqueci tantas vezes!
E, no entanto, permanecem
Em meu sangue, o perfume
dos seus beijos enganosos
e a luz dos seus olhos traidores.
Eu o esqueci mais ainda
E suas melífluas palavras
ainda entristecem minhas noites.
Eu o esqueci, juro que esqueci
e minto, engano meus desejos.
Não quero suas marcas assim
esculpidas em minha alma.
Ai de mim! Não as quero, mas
por mais que elas se derramem
dos meus olhos constantemente,
ficam em mim, ficarão para sempre.

Saramar

Imagem: Sandy Clark

HAI CAI


apressado falcão
nas nuvens suspenso é
um traço dos deuses.

à noite as flores
dormem sozinhas no rio
esperando o dia.

borboleta sorri
admirando sua asa
no tronco vermelho.

no jardim as flores
de cerejeira tingem
os olhos do tordo.

sem saber do sol
dormita o galo cego
e o dia vai longe.

se chover nos jardins
os guarda-chuvas de sapo
cobrem formigas.
Saramar

TRABALHO



Há no trabalho a essência dos deuses.
Aquele que faz, constrói e sonha
é aprendiz da divindade e dela recolhe o lume.
Verbo tranformado em vida.
Fazer
Construir
Sonhar
Verbos dos homens e dos deuses
elaborando os dias, tecendo a vida
em luta contínua e sedutora.
Não é ópio, antes dor e, apesar disso,
escreve diariamente a história do homem
.

Saramar

Imagem: Sadie Patterson

SAUDADE


Gotejar perene das horas
por entre minhas lembranças.
Herança dos carinhos em meus olhos
para sempre molhados, antigos.
Uma dança em torno de mim,
um relógio que só anda para trás
buscando, buscando interminavelmente
os idos, os risos, onde se perdeu a razão.
Eco de beijos tão longos quanto a vida
e mais doces, mais doces, mais doces,
Ah! "eu sei de longe e sei de cor" .
Essas dores para sempre gravadas
em todos os seus vestígios.
Linha do tempo do amor que se foi,
distante de mim, cada vez mais distante.
Saramar

Imagem: Martin Paul

MINHAS PREFERÊNCIAS À LA BRECHT


Alegrias, as naturais.
Dores, as banais.

Casos, os explosivos.
Conselhos, os não ouvidos.

Meninas, as esperançosas.
Mulheres, as indecorosas.

Orgasmos, os estonteantes
Ódios, os inconstantes.

Domicílios, os mutáveis.
Adeuses, os impronunciáveis.

Artes, as marginais.
Professores, os anormais.

Prazeres, os desmedidos.
Projetos, os incontidos.

Inimigos, os distantes.
Amigos, os amantes.

Cores, as invisíveis.
Meses, os incontáveis.

Elementos, os existentes.
Divindades, as penitentes.

Vidas, os sonhos.
Mortes, os tristonhos.
Adaptado da Lista de Preferências, de Brecht,
por convocação do meu querido amigo, o Poeta Pedro Nobre.
Imagem: Rosemary Stanford

LIBERDADE


Ser
e aceitar
outro ser
Que não é você,
nem quer ser.
Saramar

VIESTE!


Procurei-te pelos dias sombrios da solidão.
Procurei-te em vários mundos e em outras
tantas vielas, em janelas e bancos vazios de
praças tristes, sem pássaros ou crianças.

E passavas por mim, passavas sempre por mim,
mas em meus olhos calejados de tua busca,
não havia luz e eu só via distâncias e silêncios.
As canções na noite não eram. Tudo se fora, antes.

Quando, perdido o rumo e desfeita em nadas,
surges teatral e, entre pantomimas e flores,
cercas, enlaças, enfeitas minha rua com
pedrinhas de brilhante e me diz: Vem!
Saramar


Imagem: Marie M. Šechtlové

CACIMBA



Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra

Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia

Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê
As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió
Nem sargada, nem insôça
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça

Quando eu vejo essa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá

Desejo, prá quê negá?
Desejo ser um caçote,
cum dois óio dêsse tamanho
Prá ver aquele magóte
de môça tumando banho!
Zé da Luz

Imagem: Di Cavalcanti

INDIFERENÇAS



Deixei o amor e deixarei o verso.
Meus cantos obscuros não encontram
mais eco em rabiscos paupérrimos.
Há umas distâncias que não alcanço.
Em mim, intempéries sem palavras.
Queria algum canto, um violão, talvez.
Acordes entrando em mim.
Clarear meus cantos com alguma voz
amiga, acordes, acordes que me toquem.
Algo emudeceu em meu peito e há um
peso inesperado em minhas mãos que
impede o parto de pobres palavras.
O dia, a noite e o amor com suas emanações
enganosas deixam indiferentes meus cantos.
Queria outros cantos, um acorde, prontos
para clarear os meus cantos.
Saramar

Imagem: Marcio Melo

SEM NADA


Nestas noites longas,
sentada à janela
qual donzela suspirosa,
meus olhos miram
sonhos que nem sonhos são.
São lágrimas.
Apesar de mim, choro.
Apesar de não ser, sonho
e assim, a noite vai.


Amanhã saberei, ao sol
das minhas ilusões inúteis.
Saramar
Imgem: Nicoletta Tomas Caravia

SÚPLICA DE PÁSCOA


Homem, pedaço desse mundo.

Todos os deuses se uniram para o criar e lhe
dar a essência amorosa e livre com que surgiu.
Todos os universos se equilibram perfeitamente
em seu redor para mantê-lo vivo e são e livre.
Então, Homem, por que insiste em ser prisioneiro?
Já se faz o tempo de libertar-se, chegou o momento.

É páscoa, pense nisso.

A páscoa é liberdade, é libertação.
Então, liberte-se!

Liberte-se desse animal daninho
que habita os becos de sua alma
e que ignora, oprime e mata.

Liberte-se das aves agourentas
que pairam em seu cérebro e
tramam, enredam e matam.

Liberte-se desses enlaces falsos
do preconceito e do orgulho.
São nós atando suas mãos.

Liberte-se do fardo do ódio
que o faz curvar-se até o chão
onde só os ínfimos se arrastam.

Liberte-se das armas e suas falsas
promessas de força brutal e cega
que elas se voltarão contra sua vida.

Liberte-se dessas mascaras vãs
da individualidade e do egoísmo
que elas mutilam a alma e a face.

Liberte-se desse ser estranho
em que se transformou ao
esquecer sua origem e sua sina:

a Liberdade.
Saramar

Imagem: ALexandre P.

ADEUS


Todas as músicas cantei
um segundo antes do fim.
Em todas as línguas pedi.
De você, apenas um sorriso
depois da condenação.

Esta manhã foi a última.
Vê-lo sonhando (com o quê?)
deu-me uma ânsia de arranhar
seus olhos e chorar dentro deles,
uivos de dor no final da cena.

Mas, só o que fiz foi
acordar sem barulho
e mantê-lo dormindo
calando minha voz.
Saramar

SÁBADO


Chuvinha e sol
e eu no ar com
meu vestido florido e
a boca vermelha
dos seus beijos.
Giro ao sol os
seus orvalhos
e me encho de luzes,
para mais tarde,
rabiscá-las em você.
Saramar

Imagem: Chiu

PERMANÊNCIA


Respiração a dois,
em dois,
dois em um.
Mãos abrindo
comportas.
Sal, língua e mar.
Maré, maçã rubra.
Na boca, veneno.
Vórtice,
seus mares,
veneno
na boca.
Saramar

Imgem: Georgia O'Keefe

LUA


Passeio pelas noites.
Lembranças brancas
pesam em minhas ancas,
antes iluminadas
com a lua que sempre
trazias em teus olhos.
Hoje, a lua só mira
a saudade que deixaste
em meu corpo
frio e branco.
Saramar

Imagem: Mark A. Lovewell

PRIMAVERA


O sol desenha pássaros
em flores fechadas.
Abrem-se olhos coloridos,
espantados com tanta música.
Saramar

Imagem: José Luis Garcês