TRABALHO



Há no trabalho a essência dos deuses.
Aquele que faz, constrói e sonha
é aprendiz da divindade e dela recolhe o lume.
Verbo tranformado em vida.
Fazer
Construir
Sonhar
Verbos dos homens e dos deuses
elaborando os dias, tecendo a vida
em luta contínua e sedutora.
Não é ópio, antes dor e, apesar disso,
escreve diariamente a história do homem
.

Saramar

Imagem: Sadie Patterson

SAUDADE


Gotejar perene das horas
por entre minhas lembranças.
Herança dos carinhos em meus olhos
para sempre molhados, antigos.
Uma dança em torno de mim,
um relógio que só anda para trás
buscando, buscando interminavelmente
os idos, os risos, onde se perdeu a razão.
Eco de beijos tão longos quanto a vida
e mais doces, mais doces, mais doces,
Ah! "eu sei de longe e sei de cor" .
Essas dores para sempre gravadas
em todos os seus vestígios.
Linha do tempo do amor que se foi,
distante de mim, cada vez mais distante.
Saramar

Imagem: Martin Paul

MINHAS PREFERÊNCIAS À LA BRECHT


Alegrias, as naturais.
Dores, as banais.

Casos, os explosivos.
Conselhos, os não ouvidos.

Meninas, as esperançosas.
Mulheres, as indecorosas.

Orgasmos, os estonteantes
Ódios, os inconstantes.

Domicílios, os mutáveis.
Adeuses, os impronunciáveis.

Artes, as marginais.
Professores, os anormais.

Prazeres, os desmedidos.
Projetos, os incontidos.

Inimigos, os distantes.
Amigos, os amantes.

Cores, as invisíveis.
Meses, os incontáveis.

Elementos, os existentes.
Divindades, as penitentes.

Vidas, os sonhos.
Mortes, os tristonhos.
Adaptado da Lista de Preferências, de Brecht,
por convocação do meu querido amigo, o Poeta Pedro Nobre.
Imagem: Rosemary Stanford

LIBERDADE


Ser
e aceitar
outro ser
Que não é você,
nem quer ser.
Saramar

VIESTE!


Procurei-te pelos dias sombrios da solidão.
Procurei-te em vários mundos e em outras
tantas vielas, em janelas e bancos vazios de
praças tristes, sem pássaros ou crianças.

E passavas por mim, passavas sempre por mim,
mas em meus olhos calejados de tua busca,
não havia luz e eu só via distâncias e silêncios.
As canções na noite não eram. Tudo se fora, antes.

Quando, perdido o rumo e desfeita em nadas,
surges teatral e, entre pantomimas e flores,
cercas, enlaças, enfeitas minha rua com
pedrinhas de brilhante e me diz: Vem!
Saramar


Imagem: Marie M. Šechtlové

CACIMBA



Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra

Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia

Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê
As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió
Nem sargada, nem insôça
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça

Quando eu vejo essa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá

Desejo, prá quê negá?
Desejo ser um caçote,
cum dois óio dêsse tamanho
Prá ver aquele magóte
de môça tumando banho!
Zé da Luz

Imagem: Di Cavalcanti

INDIFERENÇAS



Deixei o amor e deixarei o verso.
Meus cantos obscuros não encontram
mais eco em rabiscos paupérrimos.
Há umas distâncias que não alcanço.
Em mim, intempéries sem palavras.
Queria algum canto, um violão, talvez.
Acordes entrando em mim.
Clarear meus cantos com alguma voz
amiga, acordes, acordes que me toquem.
Algo emudeceu em meu peito e há um
peso inesperado em minhas mãos que
impede o parto de pobres palavras.
O dia, a noite e o amor com suas emanações
enganosas deixam indiferentes meus cantos.
Queria outros cantos, um acorde, prontos
para clarear os meus cantos.
Saramar

Imagem: Marcio Melo

SEM NADA


Nestas noites longas,
sentada à janela
qual donzela suspirosa,
meus olhos miram
sonhos que nem sonhos são.
São lágrimas.
Apesar de mim, choro.
Apesar de não ser, sonho
e assim, a noite vai.


Amanhã saberei, ao sol
das minhas ilusões inúteis.
Saramar
Imgem: Nicoletta Tomas Caravia

SÚPLICA DE PÁSCOA


Homem, pedaço desse mundo.

Todos os deuses se uniram para o criar e lhe
dar a essência amorosa e livre com que surgiu.
Todos os universos se equilibram perfeitamente
em seu redor para mantê-lo vivo e são e livre.
Então, Homem, por que insiste em ser prisioneiro?
Já se faz o tempo de libertar-se, chegou o momento.

É páscoa, pense nisso.

A páscoa é liberdade, é libertação.
Então, liberte-se!

Liberte-se desse animal daninho
que habita os becos de sua alma
e que ignora, oprime e mata.

Liberte-se das aves agourentas
que pairam em seu cérebro e
tramam, enredam e matam.

Liberte-se desses enlaces falsos
do preconceito e do orgulho.
São nós atando suas mãos.

Liberte-se do fardo do ódio
que o faz curvar-se até o chão
onde só os ínfimos se arrastam.

Liberte-se das armas e suas falsas
promessas de força brutal e cega
que elas se voltarão contra sua vida.

Liberte-se dessas mascaras vãs
da individualidade e do egoísmo
que elas mutilam a alma e a face.

Liberte-se desse ser estranho
em que se transformou ao
esquecer sua origem e sua sina:

a Liberdade.
Saramar

Imagem: ALexandre P.

ADEUS


Todas as músicas cantei
um segundo antes do fim.
Em todas as línguas pedi.
De você, apenas um sorriso
depois da condenação.

Esta manhã foi a última.
Vê-lo sonhando (com o quê?)
deu-me uma ânsia de arranhar
seus olhos e chorar dentro deles,
uivos de dor no final da cena.

Mas, só o que fiz foi
acordar sem barulho
e mantê-lo dormindo
calando minha voz.
Saramar

SÁBADO


Chuvinha e sol
e eu no ar com
meu vestido florido e
a boca vermelha
dos seus beijos.
Giro ao sol os
seus orvalhos
e me encho de luzes,
para mais tarde,
rabiscá-las em você.
Saramar

Imagem: Chiu

PERMANÊNCIA


Respiração a dois,
em dois,
dois em um.
Mãos abrindo
comportas.
Sal, língua e mar.
Maré, maçã rubra.
Na boca, veneno.
Vórtice,
seus mares,
veneno
na boca.
Saramar

Imgem: Georgia O'Keefe

LUA


Passeio pelas noites.
Lembranças brancas
pesam em minhas ancas,
antes iluminadas
com a lua que sempre
trazias em teus olhos.
Hoje, a lua só mira
a saudade que deixaste
em meu corpo
frio e branco.
Saramar

Imagem: Mark A. Lovewell

PRIMAVERA


O sol desenha pássaros
em flores fechadas.
Abrem-se olhos coloridos,
espantados com tanta música.
Saramar

Imagem: José Luis Garcês

LUTAS


Quebrei os elos que adornavam
cruelmente os pés e a mente.
Deixo-me dos amores e me lanço
à letra, ao verbo, ao verso.
Falta-me melodia para estes,
E foi pobre para aqueles.
Ambos são lutas que travo,
perdidas quase sempre.
Quando amava, perambulava cega
pelos amores vários e desvairados.
Nada sabia de impossibilidades,
via barcos nas nuvens e
andava por ruas encantadas
sorrindo para os passantes.
Agora, desprendida dos inebriantes elos,
falo porque, em silêncio, encho-me de agonias.
Quando falo, dúvidas me enredam.
As palavras são outros elos que arrasto
e escorrem estéreis, côncavo vazio.
Curvo-me ao silêncio e às palavras,
novas pelejas, outras quedas,
infinitamente, até a decrepitude.

Saramar


Imagem: Lia Pires

FIM


Eu queria te dizer não
E depois morrer de amor
languidamente,
entre suspiros quase inaudíveis,

cortesã em leito luxurioso.
Porém, meu romance de amor
morreu sem nenhum glamour.
É só um telefone que não chama,

e palavras que não chegam.
E, afinal, eu nem disse não.
Foi você que não ouviu.
Saramar

Imagem: José Pedro P. Costa

SEM NOME



Amo-te porque não sei porquês,
num quanto que só sei que não sei quanto.
Amo-te no duplo do que vê
se enquanto assim não vês, amo no enquanto.

Amo-te na calma e no espanto
de que não mais assim ame talvez.
Amo-te de sempre e em todo canto
que exista, que existiu ou não se fez.

Amo-te sem quandos, quais e quês,
sem se, sem todavia e sem porquanto.
Amo-te sessenta dias/mês.

E em cada santo dia e dia santo,
amo-te em todos de uma só vez
e em um de cada vez amo outro tanto.
Antoniel Campos

Imagem: André Lopes

INDAGAÇÃO


Sou homem?
Sou bicho?
Ele ri
Eu brinco.
Sou bicho?
Ele arranca
A vida
Para viver.
Eu mato
A vida
Por prazer.
Sou homem?
Eu choro
Por amor.
E desmancho
O mundo.
Sou bicho?
Ele, fauna
Eu, lixo.
Saramar

Imagem: Picasso

OUTONO


É outono lá fora e em mim, amarelam palavras
de amor, cansadas de se repetir para ninguém.
O amor que imaginei, um eco dos meus desejos,
Sonhos, canções que ninguém ouve, miragens.
Caem as folhas do meu romance, caem tristes.
Os brinquedos que inventei para colorir os dias
quedam-se estéreis. Nem um sorriso se abriu
para o girassol, nem a lua o viu e, apesar dessa
solidão, tudo continua, as estações continuam.
É outono, fez-se enfim a morte que, lá fora, é
promessa de vida, túmulo e ventre do que virá.
Em mim, sonhos, palavras e sementes mortas.
Outono enganado e vão, sem promessa ou chão.

Saramar

Imagem: Rita Afonso

A NOITE NA ILHA


Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono, entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu
e pelo mar escuro me procurava como antes,
quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora
- pão, vinho, amor e cólera - te dou,
cheias as mãos, porque tu és a taça
que só esperava os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei,
e tua boca saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.
Pablo Neruda