TORTURA


tua noturna presença
a tortura dos meus olhos
a vislumbrar-te
no escuro.
sombra de mim,
amor que não me deixa
e desconhece a indiferença
de teus olhos de outros olhos mirar.
Saramar

SÓ NUVEM


eu cheia de não-me-toques
e você todo no bem-bom,
pintor de sonhos,
colorindo meu mundo.

eu toda toda toda
e você recostado no muro
esperando meu jeito
e desmanchando tudo.

eu vazia de rumo
e você tomando minha mão
e levando o chão...

são asas, são asas
que pintou em meu coração.
Saramar

O AMOR QUE SINTO POR VOCÊ


O amor não é um jogo
não tem trama
o amor é o inverso
é a corda no pescoço
não é beijo depositado
é ferida no peito
e o sangue de quem deixa
de quem morre
e se entrega à dúvida
e despreza o freio.
o amor é o joelho no chão
do coração
é a certeza
e o não-sei-o-quê
que assombra e some
é esse querer sem jeito,
sem tempo certo,
sem jogo.
Amor é o que sinto por você.

Saramar

Imagem: Edvard Munch

INSANA


Diz-me louca, insana.
É o amor que assim me deixa.
De que se queixa?
Da chama que lhe falta
ou da paixão que me toma?
Saramar

Imagem: Richard Cosway

QUERO SOMENTE A TI


Quero somente a ti.
Leva-me de mim e da solidão.
Leva-me, ainda que em breve sonho,
empresta-me seus lábios tão leves,
e a primavera se precipitará
em flores e perfumes dentro de mim.

Saramar

QUEIMADA


queima o cerrado
mata tatu
tamanduá
tudo tarde
tudo arde
até só a cinza sobrar.

por baixo, a chama
sem alarde.

meu amor é igualzinho
também queima
também arde
também é fogo de matar.

e quando penso que se acabou
por baixo a chama dele
continua a queimar.
Saramar

FRUTO


o amor, esse fruto pesado
inclina a alma, desfaz o prumo
da árvore, dobrando os ramos,
suave dobrar-se
do céu ao barro
e voltar.
balanço.

o amor, esse fruto túrgido
fecha a garganta, derrama o travo
no vórtice amargo da ausência,
no curto tempo de murchar.
sem espanto.
Saramar


Imagem: Hiazann Chen

OFERENDA


da arqueologia da carne,
ofereço-te a vida,
sem dor, sem remorso.

da rosa e sua penugem,
ofereço-te o orvalho.

da fresca boca, e lânguida,
ofereço-te a orla.

vem, na noite,
como o vento,
como o mago e sua flauta,
cálido,
leva meus úmidos véus,
desvenda o abismo do meu dorso.

Saramar

Imagem: Daeni Pino

EU E VOCÊ


Você era o lume
na aguda nudez dos meus olhos
vendo tudo que eu sonhava,
mas se perdeu do meu carinho.

Desenhei palavras de amor
nas calçadas,
esperei sua resposta.
Você mudou de caminho.

Farto-me agora dos amores alheios
beijo com os beijos dos outros
deito-me em leitos repletos (miragem)
entre as canções dos amantes.

Nossa música era a mesma
e outra também, mais intensa
e a todos seduzia, mesmo presa,
guardada em nós (ilusão)
como fruta aberta na mesa.

Mas você mudou de caminho,
perdeu-se em outros carinhos.

Saramar

Imagem: Nicoletta

TARDE


Agora sei que amar você
é embaraço de pêlos,
tonteira, tentação,
uma cor de crepúsculo
fingindo aurora
um poema preso
em folha branca.
Amar você é um drama,
um silêncio lá fora
e gemidos por dentro
e gritos
e graças ao dia
em que o mar se abriu
e o conheci
biblicamente.

(por que só agora descobri?)

Imagem: Picasso

Hoje há um poema novo lá no blog do Leo. Clique
aqui.

ORQUÍDEA



entre umidades,
sob impoderável peso,
o entreabrir lento e encarnado.
de todas as seivas, bebo
de todas as luzes, tomo
um pouco da cor, um pretexto
de apressar o momento,
em que finalmente, floresço.
Saramar


Imagem: Bluegirl

SÁBADO

Guardei minha tristeza.
Um novo sapato
e saio...

sábado
e o amor tão próximo.
Saio imitando, do sol,
a claridade.
Saio leve, ao encontro
do bárbaro fogo do seu beijo
para colorir meu vestido de vermelho.
Saio, sábado
e volto, breve.

Saramar

Imagem: Joani

VINHO


traz-me o vinho,
que hoje preciso
da embriaguez vermelha
que só provo em sua boca.
Saramar

Imagem: Pilar Hinojosa

ENGANO


Horas não bastam
para esquecer você.
Dias não bastam,
dias não passam,
o amor não passa.
Alguém me enganou,
o tempo não mata,
o tempo só passa,
sem notar minha dor.
as horas não levam
os dias que passam,
o tempo não basta,
para matar meu amor.
Saramar

Hoje há um poema novo lá no blog do Leo.
Se você ler, ficarei feliz.
É só clicar
aqui.

Imagem: Joel Sartori

NUA


Indecente,
dispo-me à tua frente.
Espantado, então vês
que algum antigo amor
já me marcou os seios
e entre o perfume
de magnólia
que deles evapora
provas um gosto de sal
percebes um cheiro de dor
Ao me ver assim, tão nua
sabes, então, que meu riso
que não tem querer nem motivo,
não o sendo por mal,
é um brinquedo enganador.
Saramar

Imagem: Cristina Becejski

TROPEL


se nada estivesse onde deve estar,
seria mais fácil te amar
seria comum a corrente,
a frágil prisão do amor
e caberia a qualquer hora
um bolero, um Piazolla.

tudo continua no lugar, porém.
teu barco no porto, teus faróis, teus amores,
meus pés pisando o perfume das minhas flores,
minha alma quieta e meu lamento.

(só meu amor, tropel indócil,
desabala-se aqui dentro
).

Saramar

Imagem: Nikki

PARTIDA



Depois das nuvens e das flores
depois dos beijos mentindo em minha boca,
a solidão canta dentro da noite, sua ária dolorosa.

Ainda não te perdi, mas já pressinto tua ida
pois teus passos se afastam dos meus,
na tristíssima dança do adeus.

Agora vais, vento que és.
antes de ir, porém, perdoa o que não digo,
perdoa o desabrigo do meu corpo sem ti.
Saramar

MANIA


"Minh'alma de sonhar-te anda perdida..."
Florbela Espanca


Não tem jeito nem solução,
esta mania de ser sua,
de passar na calçada de lá
fingindo que é setembro
para roubar cores
de primavera na rua.
Vontade de lhe perfumar,
encher sua boca de beijos
depois me deitar no seu colo,
como se eu fosse flor
e um vento me curvasse,
o vento súbito do amor.
Saramar

Imagem: Marc Chagall

VÉSPERA


chorei esse dia
e a vida que não vivi
chorei pelos dias
em que me esqueci
chorei a covardia
chorei pelos dias.
de melancolia,
todo dia, chorei.

chegou o dia,
enfim a hora
de o anseio,
da secura da alma
secarem os olhos.
agora reluto,
corcoveio,
nego.

encaro o dia
e saio em busca
de alguma folia
todo dia...
Saramar

Imagem: Jules Chéret

PÁSSARO


São leves os meus seios
em tuas mãos de pássaro.

Contigo aprendi os meneios
que ensaio ao teu breve pouso
e me alço, Ícaro, nas asas tuas.

Contigo, em fogo, em febre, em nuvem,
vivo, quando pairas e me tomas
qual Zeus à Leda em sua vertigem.

Saramar

FIM


desfeita a alma,
lágrima,
última página.

sem jeito,
laço desfeito,
me entrego e
te deixo...
...ir.

(refeita e calma)

Saramar

Imagem: Stephen Rutheford-Bate

LILITH


não me leve por caminhos sem pecados,
por pegadas de anjo.
não me perca por ser tanto,
por ser farto.

diante das minhas tormentas
eu o prefiro em desabrigo.
meu mar é pélago,
minha alma, seu reflexo.

abismos e céus nos aguardam.
onde finalmente
esqueceremos qualquer horizonte.

eu lhe dou meu corpo,
o sal da lágrima mais antiga,
o beijo mais doce, o mel.
de tudo provará, destemido.

Não se iluda, porém.
mesmo tanto, mesmo farto,
nunca será meu rei.

diante das minhas oferendas,
eu o prefiro perdido.
Saramar

Imagem: Gabriel Rossetti

SÓ


Meu amor há muito se foi
à procura de outros leitos.
Vivo acordada,
(será que ele volta?)

abri a porta,
pintei as paredes
e os lábios também.
quando anoitece, sentada no chão,
contemplo destinos.
eu e minha paixão desatinada
esperamos
(e ele não vem).

Também me vou
procurar minha Pasárgada.
Saramar


Imagem: Chagall

QUE TAL?


talvez seja cega
talvez seja nua
talvez seja a lua
que me dá
essa vontade namorar
mesmo sem ter com quem
mesmo sem ter o qual
o tal que me levaria
sua,
sua.
Saramar

Imagem: Tamara de Lempicka

INVERSO



Meu amor?

é quimera
para enfeitar versos.
uma armadilha,
um amontoado
de sonhos
em palavras mal arranjadas.

o meu amor é corrente
de madrugadas lá fora
com poetas mortos e meus cães.

é uma névoa de sonhos,
fábulas e príncipes
e esse princípio de dor
que me ronda.

meu amor?
é o inverso da flor.

Saramar


Queridos, hoje há um pequeno poema lá no blog do Leo. Se quiser, lê-lo, ficarei muito feliz. Clique aqui.

AS FLORES QUE NÃO MAIS ME ENVIAS


de que me servem as flores
presas em seus casulos e seivas?
de quem servem se
secam em meu peito
as últimas esperanças
do teu amor morto?
e ainda assim eu te amo,
eu te amo, eu te amo...
como essas rosas
que não mais me envias
(para me dizer de tua saudade)
que insistentes, perfumam
minhas mãos vazias,
minhas costas frias.

por que não me deixa livre,
este perfume de ti?
Saramar

ESBOÇO


Mais não digo.
É por te amar, tão violenta,
que me calo.
O que percebes
é apenas o que a palavra inventa.
E a palavra, meu amor,
esse esboço mal arranjado
que te apresento,
é um risco, um fio
uma gota da tempestade
que me abrasa os seios,
à mera invenção de tua presença.

Meu silêncio arranha os dedos,
sangra a palavra e ainda assim,
nada pode, nada.

(
um dia, todas as palavras
do meu amor guardado,
vão se desatar
).
Saramar

Imagem: Matisse

DANÇA


no palco,
o amor dança.
Vermelho.

A cortina que o desvenda

cobre meus pés e a mímica que inventam,
de música que não é minha.
(terá sido?
será ido?)

Cuidei do amor
durante o ensaio.
sequei suas lágrimas,
refiz suas faces,
prendi as asas que usa (falsas),
soltei o cordão
livrando-o do chão.

O amor dança
e, de tão solto,
e da liberdade dos seus pés
na dança em que trama suas ilusões,
eu até creio, trânsfuga,
que um dia foi meu.
Saramar

Imagem: Gregório Gruber

SILÊNCIO


as gavetas, desarrumadas, derramam-se,
espalhando sentimentos pelos cantos.

é o meu amor, ali amontoado
sem encontrar as palavras,
asas de, ao ar, (e) levá-lo?

que dores aquelas que caem pesadamente
como um avião?
existem palavras fáceis
para que possa rasgá-las em mil pedaços?

as palavras não ditas se enlaçam
em manto de silêncio, áspero manto.

(
sobre minha mesa, um lápis
e a folha nua
).
Saramar

UM ANJO


Um anjo passou por mim,
tocou meu ombro com tépida ternura,
deixou um sopro em minha boca.
o eco de suas palavras repete:
acorda, acorda, acorda.

De onde veio, não sei,
de algum primitivo mundo,
do outro lado da vida,
onde as lágrimas são rios submersos,
de águas escuras
e a tristeza de todo dia
vem de um absurdo desejo de ser humano
e chorar como choramos.

Saramar

Imagem: Sigismund Goetze

O AMOR


um broto de água
sob a pedra,
olhos recém-abertos,
brota.
da pedra
é tanta a sede,
entretanto,
que mina,
mina d'água,
mina d'ouro
de sol,
de repente, lépida fonte
e seus verdes aninhados.
o mundo, os musgos,
as flores em seu mirar,
o leito,
o longo deitar-se
entre as margens do corpo.
o percurso,
a pausa na curva,
a água que escorre,
finalmente rio
passando, passando
minando...
gota d'água,
a pedra no peito,
lápide.
Saramar

Imagem: Chris Fordhan

LAMENTO


se soubesse como lhe dizer,
diria da madrugada,
estação onde o tempo,
esse voraz passageiro,
sempre faz sua parada.

se soubesse como lhe dizer,
diria do dia,
um tormento crescente,
a certeza da noite,
essa que nunca passa,
madrasta.

Quem dera pudesse,
em uma palavra lhe dizer,
do meu lamento a perturbar
as noites, a lua, a cidade.

Se pudesse,
eu diria,
saudade.
Saramar

À ESPERA


traz teu sol
e abro os olhos
como se fora flor
saindo do outono.

traz a música,
e invento a dança
a dúvida dos braços,
em infinito baile.

traz um dia
e faço uma vida
valsas, vaso repleto
do nosso amor.

Saramar

Imagem: Lisa Linch

A VOZ DA FLOR


Entende a linguagem da flor?
não a mensagem da cor,
mas as palavras que murmura,
ainda que a julgue muda,
as palavras que nascem
de algum vento levinho,
do vôo de um passarinho,
das asas de uma abelha, talvez?

É a linguagem da vida,
que a flor, pelo mundo espalha,
quase sem querer.
foi assim que a vida se fez.
é assim que a vida se faz,
da singeleza de uma flor,
de sua frágil beleza,
de sua coragem de ser,
entre tão imensos eventos
que na natureza se vê.

Homem, quem dera, fosse
tão frágil e tão sagaz
como sabe ser a flor,
e espalhasse a vida
e ainda mais: colorida,
pela ausência da dor.

Saramar

Imagem: S. G. Rose

SEM SABER


eu, que do amor,
quis a ternura,
não soube dizer,
nunca soube pedir.

por isso, vivo só de querer,
por isso, morro assim,
de amor, sem merecer.
Saramar

Imagem: Paula

MORTE


Na minha mudez,
naquilo que não lhe digo
moram, mudos
e morrem, os mundos.
e você nem se move.

Na minha mudez,
no que guardo calada,
moram o medo surdo
e a sede morta.
e nada se move.

Saramar


Hoje há um poemínimo lá no blog do Leo. Clique aqui para ler.

NAVEGANTE


nem queria tanto.
só teu cheiro de mar
e o sal de tua pele
em fogo dentro de mim.

nem queria mais
senão o vento,
teu hábito de passear
e a vida que habita
as curvas de tua mão.

nem queria nunca mais
teu pranto
teu jeito distante
de quem olha o mar
já pensando em voltar.
Saramar

ESQUECER


Enfim, esqueço.
deixo-me de languidez e desmaio
e caio da vida,
borboleta ferida de vôo breve.
enfim me deixo levar
pela precária necessidade
de aprender
a ler o mundo sem cor
e esse peso nos pés,
a falta do seu amor.

Saramar

Imagem: Willow

PERDÃO


perdão pelo contrangimento
desse amor persistente.
não queria, mas o que faço,
se em seus braços sonhei
o mais doce cansaço?
Saramar

Imagem: Klint

SAUDADE


sabe aquela saudade
que parece que vai matar?
amansou, tomou jeito,
anda aqui dentro quieta
espinho a me envenenar.

sabe aquela saudade
com jeito de furacão?
arrefeceu, é um vento
que espalha, sem piedade,

meus pedaços pelo chão.

sabe aquela saudade
que não vai nunca embora?
já quase não se percebe.
é lágrima transparente
é um frio, como se lá fora,
o mundo se cobrisse de neve.
Saramar

INÚTIL


o fogo,
o gozo,
meu gesto
de enfado
o lado sem cor
da parede
à espera
de algum sinal
de amor.
Saramar

Imagem: Laurie Lipton

CHEGADA


quase carícia de vento antes da chuva
foi assim que veio,
leve, alheio ao chão,
foi assim que veio.

um perfume de laranjeira,
atrás de alto muro
que deixa na boca
a saudade do para sempre perdido
foi assim que veio.

(
como é frio o chão
sem suas asas,
que me ensinaram a voar.
)

Saramar

Imagem: Elvira Amrhein


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VOCÊ


O que quero?
quero o seu amor
e, com ele, o mundo
que se abrirá, porta de deslumbramentos.

o que espero?
espero seus braços
e o vasto dos amores, o pleno,
tudo.

todo dia, tudo o de sempre
e você vermelho irrompendo entre
o monótono existir.

o que quero?
romeu e julieta
vivos, amantes
das mãos, dos olhos,
ascender em seu corpo, espiral,
raios e trovões na boca.

Saramar


Imagem: Salvador Dali

DO QUE SOU


do que sou
não posso dar notícia.
ainda revolvo gavetas
à busca de mim.
reviro álbuns,
lugar onde jazem
(quietos como mortos)
meus rostos
antigos, antigos.

do que sou
quase nada encontro...
um lampejo, um sapato,
alguns desejos,
antigos, antigos.

dos escritos, dos ditos
fragmentos sem fim
que dizem de mim,
das amarras,
dos mares incontornáveis,
dos portos que não alcancei.

do que sou
do tanto que amei,
há vestígios dos risos,
dos beijos, amigos.

e ainda assim,
em todas as caixas, nos livros,
nos cadernos em branco,
nos versos,
nas marcas de pranto...
há tanto adeus, tanto.

do que sou, ainda não sei.

Imagem: Lowther Steve

MEU ERRO


Penso que não te amo,
de vez em quando.
Meu canto mudo
e meu coração, esse insano,
revelam logo
que me iludo.

Saramar

Imagem: Alfred Gockel

NOITE


No mais profundo da noite,
atraída pelo papel leve, despido de versos
e o lápis sem sentido, bailarino sem música,
sonho o sonho acordado
de todas as madrugadas,
os pecados íntimos e solitários,
a lua,
busco palavras, pássaros ariscos.

Traem-me os sonhos, outros,
de noturnas carícias.
Trago de vinho em escuridão,
travo,
treva,
solidão.
Saramar

O ADEUS


O adeus irremediável,
que corta o coração
com a lâmina mais fatal
é aquele que se reafirma
no silêncio de todo dia.

O adeus enche o ar de silêncio
como a névoa mais fria.

Saramar

Imagem: Mico

DESOLAÇÃO


era ilusão, você disse
e a música me impediu de ouvir.
Agora, não olhe para trás,
é tudo desolação.
rasguei todas as cartas,
é morto o pássaro que me habitava.
o que pensa ser o sol
clareando o chão,
são os pedaços do vestido amarelo
que você gostava.

(rasguei o que tinha à mão).

Saramar

Imagem: Heinecke

SAL



De tanto percorrer tua pele
minhas mãos guardam
de ti, o lume do mar sob o sol.
se prová-las,
em carícia de alucinar,
nelas, irás encontrar
o sabor de teu sal.

Tanto em tua pele tento
desenhar meu desejo
que perco os limites do corpo,
não sei mais
se encontras minhas boca
ou se, assim desfeita, te beijo.
Saramar

Imagem: Klimt

CANSAÇO


Pesa-me o amor
nas palavras que escrevo,
nos sonhos que teço
sob o lume da solidão.

Pesa-me o amor desvalido,
o sem sentido da vida
na mais completa escuridão.

Quem vive sem seu amor
é farol desfacelado
que nunca mais alumia
o caminho do amado
de andar em qualquer hora
como se fosse sempre dia.

Pesa-me o amor por sua ausência
por nunca estar onde estou
por sempre ser uma miragem
nos caminhos por onde vou.
Saramar

Imagem: Constance Marie Charpentier