CLOWN


O clown,
vestido de ilusões,
alimenta-se
dos meus olhos.
Sorve,
sob o móvel céu,
a felicidade
que levei para
colorir o circo.
Saramar

Imagem: Georges Seurat

DISTRAÍDA


Não o vi chegar.
Só o percebi quando
um segredo nasceu
em meu coração.
E também era seu.

Foi o amor que, sorrateiro,
por inteiro me tomou.
O que era deserto, então,
em jardim se tornou.
Saramar


Imagem: Renoir

FOGO


Cozinho o verso
em fogo lento
tostam-se meus olhos.

Saramar

UM BEIJO SÓ


Basta um beijo, um beijo só
e minha alma se abrirá em sorrisos,
em água fresca e música matinal.
Basta um beijo, um beijo só
e recolho meus retalhos perdidos,
refaço-me inteira em seus lábios.
Basta um beijo, um beijo só
e ressurjo em minhas vestes de
deusa para desnudar meus desejos.
Basta um beijo, um beijo só
e busco em baús as fantasias que guardei,
coloridas de amor para lhe entregar.
Saramar

SEM VERSO


risco
linha
letra
vão
verso
verso vão
linha nua
letra vã
rabisco.
Saramar

LÁGRIMAS


Não sei se choro
não sei se rio
sei das marés
dos mundos vazios.
sei das águas
que rolam em pares,
em pedras, em cios
suculentos de dores,
em chuvas contínuas
dos meus olhos baldios.
Saramar

AUSÊNCIA


Sua ausência
salta sobre mim
fantasma.
Saramar

FOME


Vivo em suspenso.
de onde venho?
do que me farto?
por que me faltam
braços?
por onde vôo
se não há barcos
nem nuvens?
de onde vem essa fome?
por que os ventos,
se não há velas e
claridades de mar
não há,
nem estrelas
a guiar
minha sede?
Saramar

Imagem: Jennifer Goldberg

AMOR


Enfim,
você veio
não buscou
diamantes
trouxe o brilho,
antes.
Saramar

Imagem: Annie Griffiths

VÉU


Sultão, escolhe-me em apenas uma
de suas mil e umas noites,
perfuma minha boca com teus beijos.
Vê esses véus, toca-os e, quem sabe,
nalguma aragem, num meneio,
num açoite de mais beijos,
encontra entre eles
a flor, o pêssego,
que em mel banhados,
prendam para sempre nos meus,
os teus desejos.
Saramar

Imagem: Rodin

MANDEI-TE UMA CARTA


Mandei-te uma carta perfumada,
em papel novinho, falando de amor.
Falando dos encontros que não marcamos
e das serenatas que ainda vais compor.
Na carta, falei das noites (tantas),
dos meus lábios que suplicam pelos teus,
das carícias perdidas em gestos sem rumo.
Disse também o que já teu coração pressente,
do amor, orvalho noturno, fantasia de Schubert,
pássaro solto em meu peito, mágico tapete
que me leva a percorrer cordilheiras,
a abrir clareiras em mim e em ti.
Mandei-te uma carta perfumada.
Há mil destinos em tua resposta.

Saramar
Imagem: Françoise Conzalez

FALA-ME DE AMOR


Hoje, fala-me de amor
desmancha meus medos
afasta esses sortilégios
da minha vida sem razão.
fala com flores
fala com versos.

Hoje, fala-me de amor
com grandes gestos
com todos os
beijos incertos
de quem se entrega
e entre carinhos
se perde.

Hoje, fala-me de amor
mesmo mentira
mesmo assim
te entrego
como criança
a vida e os sonhos
vê, preciso de ilusão
e vivo de esperança.

Hoje, fala-me de amor
e da beleza de amar
mesmo à distância
em grande tormento
diga que de me amar
constróis teus dias,
e farei do teu amor
meu alimento.
Saramar

Imagem: Rotari

Mar


um mar aqui e
já o teria cruzado.
Cabral, às avessas
estaria em Portugal.
Saramar

CONSTRUÇÃO


Farta de concordância
desato o verbo e
exijo que as crianças

reconstruam o mundo
com a argamassa
do sonho e do riso.
Refaçam-se as metáforas
povoem os livros de flores
e enxotem as palavras
de ordem.
Acabem com os sujeitos ocultos
da guerra e seus objetos mortíferos.
Ressuscitem a alma das crianças
para chorar outras crianças
mortas, enfim inatingíveis por obuses
e por absurdos cruéis dos
monstros carnívoros,
senhores das frases duras,
das armaduras.
Procurem outros tempos
em que os verbos se conjuguem
no presente e no futuro,
traduzindo-se em esperança.
Apaguem as orações radicais
e em seu lugar deponham as armas.
Destruam as onomatopéias malignas
das balas tracejando em corpos
infantis e colorindo de vermelho
a infância e a juventude.
Desmontem os mísseis,
trocando-os por cartas de amor,
de amizade, de perdão.
Acendam a luz nos olhos
dos velhos, cansados de
procurar a mensagem
dos deuses em sangue e lágrimas.
Basta de antônimos,
queremos igualdade de termos
queremos construir juntos
os versos livres,
os versos límpidos da
PAZ!

Saramar

Imagem: Picasso



SEM PALAVRAS


Ando sem palavras
mas cheia de esperança
ando sem palavras, sem meios
sem nada, mas brinco, criança
em parque de diversão, alada.

Ando sem palavras e preciso
falar do meu amor guardado,
a se revelar em gesto conciso,
em música, em vento, em mar.

Ando sem palavras, então canto
os versos de amor que não são meus
para encantar meu amado, enlevá-lo,
apesar da saudade e deste pranto.
Saramar

Imagem: Wolves

ENTREGA



Tentei compor a canção dos amantes
construindo os acordes da paixão
cuidadosamente se fazendo em
gestos, olhares, pontes.
Tentei compor meu amor em
cotidianos, músicas e cores.
Agora, amor, entrego-lhe
meus sonhos e a razão.
Feliz, entrego-me também,
sem medo ou hesitação,
ao seu mundo, construído
com as palavras de amor
que você me diz.
Saramar
Imagem: Durer

NADA


folha vazia
mundo cheio
de palavras
ao fundo
ao meio
presas
presságios
prólogos.
meu mundo
preso
mudo.
se rumo há,
cala-se..
Se a voz
se solta,
adágio.
Saramar
Imagem: Vermeer

ATRIZ


De tantos disfarces me visto.
De gestos e gritos, vozes, vestidos.
Fujo de relógios e me envolvo
em cortinas de silêncio.
Lanço dados sem números.
Erro o passo e me aprumo.
Apóio-me em frágeis amores,
falsas bengalas.
Dou-me, renego e volto ao ninho.
Desterro-me,
por amor me degredo.
Provoco minha própria história.
Artesã dos meus dias,
invento falas, mas
aceito desenhos e diálogos.
Desmonto possibilidades.
Faço e me desfaço.
Choro de rir,
mergulho em lágrimas.
Lavo-me. Limpa,
volto aos dias claros.
Renasço das águas,
pobre Afrodite
no tablado da vida,
Fecho as cortinas,
até o novo dia.
Saramar

Imagem: Shell Bell

PERCURSO


manhã e você,
sol de prazeres raiando
em meu corpo nu.

em vinho e véu
ponho-me à sua mesa
adoço-lhe, mel.

céu e sol desmaiam
eu espero seus beijos
em crepúsculos.

e anoiteço
em você me perco, lua
sem pudor, sem véu.
em nuvens, névoas
em seus braços descanso
em mim, amanhece.
Saramar

E AINDA FINJO, AMOR


E ainda finjo escrever, amor,
quando nem consigo dizer o
quanto te amo e me entrego.
nem consigo dizer das horas
de enlevo, quando me quedo
ao teu lado, contemplando
teus sinais, colhendo suspiros
que imagino de amor, deste
amor que toco com meus dedos
amedrontados, cristal que pode
se romper e entornar minha vida
entre riscos e falhas do chão
em que me recuso a pousar
pois, contigo sou pássaro,
borboleta e pétala solta
dançando sobre ti, perfumada
e leve para não perturbar a
calma que deixas onde ficas.
Eu te amo, meu amor, tanto mais
quando, sozinha, percebo a parte
que me falta, arrancada quando
vais e levas em ti, o cheiro, a saliva,
as palavras, minhas palavras
desse amor infantil, meio sonho
que sinto por ti.
Saramar

NADA SEI


Não sei por que espero
o amor, este engodo dourado
que me manteve presa em
seus lábios por outros molhados.
Não sei por que improviso
as noites em meu corpo se
nunca está em mim,
mesmo se mira meus olhos
com seus olhos cansados
de tanto contemplar a beleza
que não tenho para o desesperar.
Não sei por que o espero
se seu amor sempre foi
farol às avessas e me levou
às ilhas ilusórias da paixão
lá me deixando nua, sem sol,
mais nua que sua indiferença.
Não sei, nada mais sei
a não ser da presença deste amor
que você olha com o desdém
dos deuses e a frieza dos desalmados.
Amor sem fogo na manhã.
Quimera de um solitário querer.
Saramar

Imagem: Bernadete Triki

AMOR MORTO


carta de amor que recebi:
papel branco, linhas vazias.
resposta que escrevi:
estas linhas retas e azuis,
meu eletrocardiograma.

Saramar
Imagem: Susana Ferreira

SOU COMO SOU


Sou como sou,
mas posso mudar
o rumo e a voz
de pássaro a
cantor.

Sou como sou,
mas dou a mão
à palmatória,
o beijo, a dose
de amor.

Sou como sou,
mas me transformo
em cor, em flor
depende de como
você me quer.

Sou como sou,
e posso querer
continuar a ser
mas, posso também
ser o que você quiser.
Basta dizer.
Saramar

AMOR



que coisa mais linda,
ser poeta por amor,
entregar-se como as
palavras se entregam
ao autor.
Saramar

Imagem: Gemma Leys

VIAGEM


Um bandoneon na madrugada
enche de suspiros minha calma.
Pessoas desfilam indiferentes
à música que rasga o peito dos amantes.
A alma tonta de sons, os sonhos todos,
A saudade de uma voz que não ouço,
mas que canta em meus sentidos.
As mãos e os lábios que nunca toquei
não, não fui eu que os busquei.
Foi o tango.
Saramar

Imagem: Jocelyn Haybittel

OUTRAS PALAVRAS


Tantas palavras, tantas.
O silêncio, entretanto
impede o canto de amor
que tento, em vão, cantar.
Alheio, minha voz não ouve
e as palavras se perdem
como as lágrimas no mar.
O que mais quer, se morto
o sonho, desfeito em dores,
só palavras tenho, oferendas
de amor em canto torto?
Saramar

Imagem: Da Vinci

PALAVRAS


Ilusão?
Ilusão é ter você
além dos meus
versos de amor.
Ilusão é querer o amor
e pensar que minhas
desencontradas palavras
são versos.
Saramar
Imagem: Cherikov

ONDE ESTÁS?


Vê o que meus olhos dizem.
Setas mergulhadas no fel.
Do amor, carregam a sina,
caídas em desvãos, ao léu.
Cega, dispersas retinas,
erro o trajeto, descaminho-me
e de ti, perco o rumo, apesar
de ir sempre ao teu encontro.
Onde estás que não me ajudas
a encontrar teus passos
e mostrar meus olhos tristes?
Por que não vens nas runas,
no tempo previsto dos astrólogos
ao encontro dos beijos que guardei,
fogo em minha boca?
Por que se perde também?
Vem.
Busca os mares e, aventureiro,
cruza o meu destino e toma
o que hoje é de ninguém.
Saramar
Imagem: David Stevens

LUZ


O sol parado na esquina
e eu aqui besta de tanta cor.
Felicidade.
Saramar
Imagem: Mostafa Keyhane

TODOS OS AMORES



Eu o amo como criança,
em deslumbramentos.
Sigo seus passos.

Borboleta, toco seus dedos
como em flores.
A força e a beleza o fazem totem.
Aos seus pés, vivo em adoração.

Pássaro desarmado, eu o amo
cantando em seus dias, arrulho,
colorindo de amor suas manhãs.

Eu o amo, primeira namorada,
buscando em seus refúgios
a doçura dos sonhos
e os prantos escondidos
e seus fragmentos.

Eu o amo para sempre
como amam todos os amantes.

Mãe, eu o amo nas noites
colho suas dores,
enterro-as em mim
para que não mais voltem.

Eu o amo tranquilamente.

Leda, eu o amo em delírios,
em transes de amor.
E o quero deus e suas asas
insensatas em meus seios,
a fazer perder minha alma.

Eu o amo com o abandono
das mulheres perdidas de amor.
Arrasto-o em meus mares
escuros e pesados.
Inundo seus sentidos.
Náufrago em minhas noites,
renasce todas as manhãs
de tanto amar.
Saramar

Imagem: Michelangelo

VENTO


o vento
imprudente
traz seu aroma
destelhando
minha razão.
Saramar

Imagem: Steven N. Meyers

BILHETE (*)



Vou lhe dar até o dia dos namorados
Para descobrir que me ama demasiado
E que sou a mais linda rosa que já colheu
no jardim da sua vida de eterno apaixonado.

Para que busque em seu coração
os mais belos sentimentos de amor
e derrame-os sobre mim, qual chuva
ou orvalho noturno saturados de cor.

Caso não descubra até lá, morrerei.
Meu coração partido por essa paixão
Se desmanchará em lamentos e ais
Por esse amor não correspondido e vão.

Mas, se descobrir e vier com flores
E beijos, bombons e linda melodia
Para finalmente declarar que me ama,
Juro que não mais lerá este tipo de poesia.

Saramar

(*) este poema surgiu de uma brincadeira com um poeta sobre escrever obviedades românticas.


Imagem: Ana Scott

SEDA



Era um fio,
uma angústia.
amarrou-me
em volteios
de apaixonado.

Fio sem nó.

Enquanto eu,
bicho de seda
só.
Saramar
Imagem: Kataken

FOME


minha fome
é de asas
se me alimentas
parto
livres os pés
solto o abraço
solta do teu braço.
Saramar

QUANDO?


Suaviatio
Suydade
Saudade
seus beijos
ternuras
penumbra.
manhãs, manhãs
Amanhã?
Saramar
Imagem: Jodi Cobbi

MENTIRAS


Por onde vou dispersa em meu logro?
Não há linha, nem fogo a limitar os
rasgos de falsos amores que cultivo
ou a solidão a que me entrego,
mulher sozinha e sem abrigo.
Bebo, bebo nestes cálices inusitados
e o sabor da fome em meus lábios,
o calor das mãos que me roçam
e me desfazem em ventos loucos
nada mais são que mentiras quando,
desenfreada, acordo a noite
para que ouça meus lamentos.
Saramar

À ESPERA


Havia um piano e a música
sozinha e vertical escorria
em fragmentos fugindo do
barulho da rua.

Havia um brevíssimo espanto
na noite. A espera, a urgência
de amante e a surpresa da
chegada, há tanto, ânsia.

Havia o vinho em belo talhe
de cristal e os pêssegos
de doçura proposital
para aquele que, faminto, viria.

Viajante a sorver esses cuidados
com lábios e bocas e braços,
quase animal, de suspiros,
de precisos olhos de animal.

Havia a mesa posta onde
os pratos esperavam o calor
do alimento partilhado entre
beijos e garfos.

Havia o quarto onde o silêncio
aguardava as chamas que viriam
finalmente desfazê-lo em
risos, murmúrios e ais.

Havia um mundo recém-nascido
de ofertas e vontades.
Um mundo sem asperezas,
só segredos, imprudências e
circunstâncias, botões e rosa.

Havia amor, indisfarçável.

Ninguém nunca veio habitá-lo.
Só este silêncio e os desejos
soltos, perdidos neste canto
de solidões.
Saramar

Imagem: Ana Maria Russo

VERTIGEM



Suas carícias,
Lâminas
lanham a pele.
Rasgo a tarde
em gemidos.
Púcaro,
você me invade.
Saramar
Imagem: Mary Ann Mercer

PAUSA PARA O ANIVERSÁRIO


Nesta semana, estou em festa!
Um ano, amigos, um ano tentando escrever poemas.
Raras vezes consegui, é verdade.
Tantas vezes, olhando para essa tela, lendo o que havia escrito, pensei em desistir. Mas, escrever é vício, mesmo para quem é aprendiz e mau aprendiz.

Por isso, continuei.

Neste ano inteiro do blog, que começou despretensiosamente, aprendi a não desistir, aprendi a pôr meus sentimentos e sonhos em palavras, pobres palavras, mas verdadeiras e importantes para mim.

Neste ano do blog, o melhor de tudo foram as pessoas maravilhosas que conheci e que se tornaram meus amigos, meus incentivadores (ai, ai), apesar da poesia meio torta e sem ritmo, sem rima, sem musicalidade.

Agradeço a todos que me lêem e mais ainda aos que comentam, encontrando beleza onde há apenas uma canhestra tentativa de escrever.
Sem vocês, o bloguinho não estaria fazendo aniversário e eu não estaria com a alma em festa.
Beijos e muito obrigada.

Imagem: Jules-Alexandre Grun

SERÁ AMOR?


É amor?
Essa febre, esse fogo,
esse gelo nas veias?
Garganta fechada de soluços,
a alma despida em esperas,
e o corpo que por outro anseia?
O que tem o amor
com esses olhos perdidos, noturnos?
E com mesas postas de feras
perdidas em mistérios de dentes,
de garras, de pétalas em seios?
Será amor?
Ou o cruel tridente
da paixão a abrir em meu mundo
fontes de mel em uma única flor?

Saramar

ENQUANTO HOUVER SOL


O sol acorda a manhã
e seca todas as poças
o sol acorda a mulher
e apaga todas as lágrimas.

Meio dia
fome inteira
de você
sol a pino
visões
entre a multidão
de sozinhos.

Sol
a vida em tom maior
calor nos olhos
calidez e esperança
tarde se desmanchando
mas ainda não é tarde.

Cores se desfazem
em nuvens quentes
sol e lua
lua e sol.

Enfim, silêncio
e estrelas engolindo
o dia.

A tarde se foi
levando as cores.
Agora é tarde.
Saramar

Imagem: Arnie Rosner

CHUVA


Chove e há um ar de dança nas folhas.
Passarinhos desenham malabarismos
nas poças, nos riachinhos largífluos e
em ramos alegres, quase marítimos.
Chove, chove longamente e as ruas
brilham, líquidas, rios efêmeros.
A chuva carrega os passantes e cria
ilusões de sombras e luzes e névoas
que também dançam em calçadas nuas.
Lá fora, a chuva é festa na tarde fria.
Aqui dentro, é tempestade de mágoas.
Saramar


Imagem: Denis Lolet

TALVEZ....


Perturba meu coração
um aroma de flores.
Será sonho ou essa saudade
a desarrumar meus sentidos
para iludir minha solidão?

Será ele que finalmente
chega envolto em ternuras?

Será ele, o longínquo amante
que, em leito de odalisca indiferente
esqueceu-se dos meus braços,
antes mornos de paixão,
que agora gelam à sua espera,
vazios e inúteis?
Saramar

Imagem: S. G. Rose

ESPERA


Meu amor,
Eu te esperei desde a madrugada
Não vieste com as estrelas
apenas o sol viu minhas lágrimas.
Eu te esperei
plantei margaridas e sonhos
sob as mangueiras
e não vieste.
despetalei, fiquei nua
limpei os vãos,
molhei as flores,
enfeitei os espelhos
com meu vestido amarelo
perfumei os seios
e não vieste.
Agora, neste ermo
do mundo inteiro
neste quintal
entre os pirilipampos
em torno de suas luzes
Canto a música dos sós
em murmúrios.
quem sabe ouves
e vens?
Saramar

Imagem: Roel Hofman

FOGO


À beira do fogão,
fogo a me consumir
versos talvez caiam
nestas chamas e
se arranjem em fogo vivo
dançando ao se abrir
qual ostras
e se diluam
em delícias
de outras bocas.
Saramar

QUEM É VOCÊ?


Quem é você que me toma em bastidores
E faz dos meus sonhos palco iluminado?
Quem é você que me faz bailarina
Em seus braços, surdo aos meus temores?

Quem é você feiticeiro encantado
Que se desmancha em serpentina
A me envolver colorido, em festa
Dos sentidos, em doces langores?

De onde veio e por que fica em mim,
Deus vermelho, paixão, nó de desatino?
Se inclemente, cerrará de vez a cortina

E, dançarina sem prumo, exausta e calma
Descansarei minhas pernas tristes
Sob refletores cegos como minha alma?

Saramar

Imagem: Degas

GUERRA


Os homens travam suas guerras
E arrastam sorrisos congelados
Desde o lúgubre tempo da bomba
Ou da bala, até o vácuo de terra
Que acolhe suas crianças mortas,
Último berço,
Definitivo colo, de sombra.

Os homens escrevem manuais,
E levam suas palavras assassinas
A outros homens, sábios sádicos
Que ensinam em suas páginas vermelhas,
Mil mortes.

Para as dores, nenhum vocábulo,
Nem parênteses.

Os homens matam os homens
E destroçam as crianças,
Abrindo gritos de loucas
Em bocas, antes maternas
Agora roucas pela poeira
Deixada por bombas, balas,
Baques emudecedores
De qualquer humanidade

Os homens e suas guerras
Parem dores em parto
De morte e ecos de dor.
Parem, parem a guerra.
Parem.
Paz!
Saramar

CONVITE


Vem e, amante,
perfuma meu corpo
com teu hálito de mar
vem e me embriaga
com o som do teu beijo
sou cereja, e para ti,
serei pétala
e suavidades
vem e me cobre
com a luz do teu desejo.
Saramar

Imagem: Ryuijie

HOJE


Sob as estrelas, seu rosto
é um mar de promessas
aberto às ânsias do meu coração.
Antes desses sonhos
que despertou em mim,
a aridez dos insensíveis
plantara espinhos e dores,
frio e escuridão.
Hoje, ondas de amor
envolvem meu ser e
levito em seus braços,
pássaro feliz e colorido.
Saramar

Imagem: Carol Crigg

VÔO


asas frágeis
vôo malogrado.
ainda assim,
desfilo meu amor
em passo de dança,
alado.
Saramar

Imagem: Degas