SÁBADO

Guardei minha tristeza.
Um novo sapato
e saio...

sábado
e o amor tão próximo.
Saio imitando, do sol,
a claridade.
Saio leve, ao encontro
do bárbaro fogo do seu beijo
para colorir meu vestido de vermelho.
Saio, sábado
e volto, breve.

Saramar

Imagem: Joani

VINHO


traz-me o vinho,
que hoje preciso
da embriaguez vermelha
que só provo em sua boca.
Saramar

Imagem: Pilar Hinojosa

ENGANO


Horas não bastam
para esquecer você.
Dias não bastam,
dias não passam,
o amor não passa.
Alguém me enganou,
o tempo não mata,
o tempo só passa,
sem notar minha dor.
as horas não levam
os dias que passam,
o tempo não basta,
para matar meu amor.
Saramar

Hoje há um poema novo lá no blog do Leo.
Se você ler, ficarei feliz.
É só clicar
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Imagem: Joel Sartori

NUA


Indecente,
dispo-me à tua frente.
Espantado, então vês
que algum antigo amor
já me marcou os seios
e entre o perfume
de magnólia
que deles evapora
provas um gosto de sal
percebes um cheiro de dor
Ao me ver assim, tão nua
sabes, então, que meu riso
que não tem querer nem motivo,
não o sendo por mal,
é um brinquedo enganador.
Saramar

Imagem: Cristina Becejski

TROPEL


se nada estivesse onde deve estar,
seria mais fácil te amar
seria comum a corrente,
a frágil prisão do amor
e caberia a qualquer hora
um bolero, um Piazolla.

tudo continua no lugar, porém.
teu barco no porto, teus faróis, teus amores,
meus pés pisando o perfume das minhas flores,
minha alma quieta e meu lamento.

(só meu amor, tropel indócil,
desabala-se aqui dentro
).

Saramar

Imagem: Nikki

PARTIDA



Depois das nuvens e das flores
depois dos beijos mentindo em minha boca,
a solidão canta dentro da noite, sua ária dolorosa.

Ainda não te perdi, mas já pressinto tua ida
pois teus passos se afastam dos meus,
na tristíssima dança do adeus.

Agora vais, vento que és.
antes de ir, porém, perdoa o que não digo,
perdoa o desabrigo do meu corpo sem ti.
Saramar

MANIA


"Minh'alma de sonhar-te anda perdida..."
Florbela Espanca


Não tem jeito nem solução,
esta mania de ser sua,
de passar na calçada de lá
fingindo que é setembro
para roubar cores
de primavera na rua.
Vontade de lhe perfumar,
encher sua boca de beijos
depois me deitar no seu colo,
como se eu fosse flor
e um vento me curvasse,
o vento súbito do amor.
Saramar

Imagem: Marc Chagall

VÉSPERA


chorei esse dia
e a vida que não vivi
chorei pelos dias
em que me esqueci
chorei a covardia
chorei pelos dias.
de melancolia,
todo dia, chorei.

chegou o dia,
enfim a hora
de o anseio,
da secura da alma
secarem os olhos.
agora reluto,
corcoveio,
nego.

encaro o dia
e saio em busca
de alguma folia
todo dia...
Saramar

Imagem: Jules Chéret

PÁSSARO


São leves os meus seios
em tuas mãos de pássaro.

Contigo aprendi os meneios
que ensaio ao teu breve pouso
e me alço, Ícaro, nas asas tuas.

Contigo, em fogo, em febre, em nuvem,
vivo, quando pairas e me tomas
qual Zeus à Leda em sua vertigem.

Saramar

FIM


desfeita a alma,
lágrima,
última página.

sem jeito,
laço desfeito,
me entrego e
te deixo...
...ir.

(refeita e calma)

Saramar

Imagem: Stephen Rutheford-Bate

LILITH


não me leve por caminhos sem pecados,
por pegadas de anjo.
não me perca por ser tanto,
por ser farto.

diante das minhas tormentas
eu o prefiro em desabrigo.
meu mar é pélago,
minha alma, seu reflexo.

abismos e céus nos aguardam.
onde finalmente
esqueceremos qualquer horizonte.

eu lhe dou meu corpo,
o sal da lágrima mais antiga,
o beijo mais doce, o mel.
de tudo provará, destemido.

Não se iluda, porém.
mesmo tanto, mesmo farto,
nunca será meu rei.

diante das minhas oferendas,
eu o prefiro perdido.
Saramar

Imagem: Gabriel Rossetti

SÓ


Meu amor há muito se foi
à procura de outros leitos.
Vivo acordada,
(será que ele volta?)

abri a porta,
pintei as paredes
e os lábios também.
quando anoitece, sentada no chão,
contemplo destinos.
eu e minha paixão desatinada
esperamos
(e ele não vem).

Também me vou
procurar minha Pasárgada.
Saramar


Imagem: Chagall

QUE TAL?


talvez seja cega
talvez seja nua
talvez seja a lua
que me dá
essa vontade namorar
mesmo sem ter com quem
mesmo sem ter o qual
o tal que me levaria
sua,
sua.
Saramar

Imagem: Tamara de Lempicka

INVERSO



Meu amor?

é quimera
para enfeitar versos.
uma armadilha,
um amontoado
de sonhos
em palavras mal arranjadas.

o meu amor é corrente
de madrugadas lá fora
com poetas mortos e meus cães.

é uma névoa de sonhos,
fábulas e príncipes
e esse princípio de dor
que me ronda.

meu amor?
é o inverso da flor.

Saramar


Queridos, hoje há um pequeno poema lá no blog do Leo. Se quiser, lê-lo, ficarei muito feliz. Clique aqui.

AS FLORES QUE NÃO MAIS ME ENVIAS


de que me servem as flores
presas em seus casulos e seivas?
de quem servem se
secam em meu peito
as últimas esperanças
do teu amor morto?
e ainda assim eu te amo,
eu te amo, eu te amo...
como essas rosas
que não mais me envias
(para me dizer de tua saudade)
que insistentes, perfumam
minhas mãos vazias,
minhas costas frias.

por que não me deixa livre,
este perfume de ti?
Saramar

ESBOÇO


Mais não digo.
É por te amar, tão violenta,
que me calo.
O que percebes
é apenas o que a palavra inventa.
E a palavra, meu amor,
esse esboço mal arranjado
que te apresento,
é um risco, um fio
uma gota da tempestade
que me abrasa os seios,
à mera invenção de tua presença.

Meu silêncio arranha os dedos,
sangra a palavra e ainda assim,
nada pode, nada.

(
um dia, todas as palavras
do meu amor guardado,
vão se desatar
).
Saramar

Imagem: Matisse

DANÇA


no palco,
o amor dança.
Vermelho.

A cortina que o desvenda

cobre meus pés e a mímica que inventam,
de música que não é minha.
(terá sido?
será ido?)

Cuidei do amor
durante o ensaio.
sequei suas lágrimas,
refiz suas faces,
prendi as asas que usa (falsas),
soltei o cordão
livrando-o do chão.

O amor dança
e, de tão solto,
e da liberdade dos seus pés
na dança em que trama suas ilusões,
eu até creio, trânsfuga,
que um dia foi meu.
Saramar

Imagem: Gregório Gruber

SILÊNCIO


as gavetas, desarrumadas, derramam-se,
espalhando sentimentos pelos cantos.

é o meu amor, ali amontoado
sem encontrar as palavras,
asas de, ao ar, (e) levá-lo?

que dores aquelas que caem pesadamente
como um avião?
existem palavras fáceis
para que possa rasgá-las em mil pedaços?

as palavras não ditas se enlaçam
em manto de silêncio, áspero manto.

(
sobre minha mesa, um lápis
e a folha nua
).
Saramar

UM ANJO


Um anjo passou por mim,
tocou meu ombro com tépida ternura,
deixou um sopro em minha boca.
o eco de suas palavras repete:
acorda, acorda, acorda.

De onde veio, não sei,
de algum primitivo mundo,
do outro lado da vida,
onde as lágrimas são rios submersos,
de águas escuras
e a tristeza de todo dia
vem de um absurdo desejo de ser humano
e chorar como choramos.

Saramar

Imagem: Sigismund Goetze

O AMOR


um broto de água
sob a pedra,
olhos recém-abertos,
brota.
da pedra
é tanta a sede,
entretanto,
que mina,
mina d'água,
mina d'ouro
de sol,
de repente, lépida fonte
e seus verdes aninhados.
o mundo, os musgos,
as flores em seu mirar,
o leito,
o longo deitar-se
entre as margens do corpo.
o percurso,
a pausa na curva,
a água que escorre,
finalmente rio
passando, passando
minando...
gota d'água,
a pedra no peito,
lápide.
Saramar

Imagem: Chris Fordhan